Contra a interpretação de si

Susan Sontag, Jung, o I Ching e o problema de uma consciência que jamais termina de se reformular

Tenho pensado que uma das imagens mais equivocadas acerca do autoconhecimento talvez seja aquela que o representa como uma lenta conquista territorial da consciência. Segundo essa concepção, existiriam em nós zonas iluminadas e regiões ainda obscuras; caberia ao indivíduo suficientemente atento avançar sobre estas últimas, interpretar suas feridas, localizar seus mecanismos de defesa, reconhecer suas projeções e, progressivamente, converter o desconhecido em conhecido. Haveria, no horizonte desse processo, uma espécie de sujeito finalmente reconciliado consigo mesmo, alguém cuja interioridade teria sido suficientemente examinada para que quase nada continuasse operando sem seu consentimento.

Não é exatamente assim que compreendo o desenvolvimento da consciência. Parece-me mais pertinente pensá-lo como uma sucessão de reorganizações produzidas pela experiência, sobretudo pelas experiências capazes de interromper a continuidade da narrativa que construímos a nosso respeito. Alguns acontecimentos são assimilados sem grandes perturbações. Outros, contudo, introduzem uma dissidência dentro daquilo que acreditávamos ser. Uma paixão contradiz nossa imagem de autonomia. Uma perda modifica nossa relação com o tempo. Uma humilhação revela uma agressividade que não sabíamos possuir. O sucesso desperta uma crueldade que antes atribuíamos apenas aos poderosos. Uma relação amorosa nos coloca diante de uma dependência incompatível com a personagem que havíamos elaborado para nós mesmos. O fracasso, de maneira inversa, pode revelar uma ambição cuja existência preferíamos negar.

Essas experiências não produzem sabedoria automaticamente. A experiência, sozinha, não educa necessariamente. Pode também embrutecer, cristalizar ressentimentos, fortalecer mecanismos defensivos ou consolidar interpretações equivocadas. Para que uma ruptura se converta em aprendizado, é necessário que alguma reorganização ocorra. O acontecimento precisa encontrar uma estrutura mental capaz de recebê-lo sem simplesmente deformá-lo até que volte a caber na narrativa anterior.

É nesse sentido que penso o amadurecimento como um processo no qual os fragmentos produzidos pelas experiências podem, sob determinadas condições, adquirir inteligibilidade. Não porque sejam finalmente explicados em sua totalidade, mas porque passam a ocupar uma posição diferente dentro da consciência. Aquilo que inicialmente aparecia como perturbação pode tornar-se experiência elaborada; a experiência pode modificar categorias pelas quais percebemos o mundo; essa modificação pode alterar nossas escolhas futuras. Talvez seja nesse ponto que algo se aproxima daquilo que chamamos de sabedoria.

Contudo, exatamente no interior desse processo aparece um problema. Quanto mais desenvolvemos instrumentos para interpretar a nós mesmos, maior se torna a tentação de acreditar que toda experiência deve ser imediatamente traduzida.

Se eu pudesse compreender cada ferida, identificar cada projeção, rastrear cada desejo até suas origens, reconhecer cada repetição e encontrar a genealogia de cada medo, talvez nenhuma região da minha interioridade permanecesse obscura. A fantasia é intelectualmente sedutora porque oferece uma promessa de soberania. O sujeito imagina que poderá um dia conhecer suficientemente seus próprios mecanismos para deixar de ser surpreendido por eles.

Foi nesse ponto que a leitura de Susan Sontag produziu em mim um deslocamento inesperado.

Sontag e a suspeita diante do intérprete

Against Interpretation não é um texto sobre psicologia e seria intelectualmente desonesto transportá-lo para o território da psique como se Sontag tivesse elaborado ali alguma teoria da sombra. O que me interessa é precisamente realizar uma aproximação consciente entre problemas diferentes.

Sontag escreve contra uma modalidade de crítica que trata a obra de arte como se aquilo que se apresenta aos sentidos fosse apenas uma embalagem de outra coisa. A obra possuiria um conteúdo escondido, e o trabalho superior do intérprete consistiria em atravessar sua forma, revelar esse conteúdo e apresentar ao leitor aquilo que a obra verdadeiramente estaria dizendo.

Há nessa operação uma hierarquia implícita. A experiência direta torna-se inferior à explicação. Ver não basta. Sentir não basta. A forma parece suspeita enquanto não for traduzida em significado.

Quando transportei essa crítica, com todas as precauções necessárias, para o problema do autoconhecimento, uma pergunta começou a me incomodar: até que ponto a interpretação de nós mesmos pode converter-se numa nova modalidade de defesa?

Somos atualmente incentivados a interpretar incessantemente nossas experiências. A raiva rapidamente encontra uma infância. A atração encontra uma carência. A repetição recebe o nome de padrão. A aversão torna-se projeção. A ansiedade é inserida numa estrutura explicativa. O sofrimento recebe uma genealogia. Tudo isso pode ser extremamente fecundo, mas existe uma diferença importante entre compreender uma experiência e substituí-la por uma explicação.

É perfeitamente possível construir uma interpretação intelectualmente sofisticada de uma emoção sem jamais suportar plenamente sua presença.

A racionalização pode possuir grande elegância.

Podemos saber por que estamos com raiva e continuar incapazes de permanecer junto à sensação da raiva sem imediatamente justificá-la, reprimi-la ou descarregá-la sobre alguém. Podemos compreender a origem de determinada dependência afetiva e continuar reproduzindo-a. Podemos identificar uma projeção com precisão conceitual e ainda assim permanecer fascinados pela pessoa sobre a qual ela foi depositada.

A explicação, portanto, não coincide necessariamente com transformação.

É nesse ponto que a leitura de Sontag acrescenta ao problema da sombra algo que considero semelhante a uma segunda camada de metacognição. Não basta perguntar o que estou sentindo ou por que estou sentindo. Em algum momento torna-se necessário perguntar também o que o meu próprio impulso de interpretar está fazendo.

Por que preciso compreender este acontecimento imediatamente?

Por que a ausência de uma explicação me angustia?

Por que determinada teoria sobre mim produz tanto alívio?

Até que ponto estou tentando conhecer aquilo que sinto e até que ponto estou tentando neutralizá-lo intelectualmente?

A consciência deixa então de observar apenas o objeto e passa a observar o próprio observador.

A sombra e a falência parcial da autobiografia

É nesse território que Aion, de C. G. Jung, se torna particularmente perturbador. A sombra aparece ali não como uma curiosidade simbólica, mas como um problema moral ligado à dificuldade de reconhecer em nós características que contradizem a personalidade consciente.

A questão é muito mais complexa do que a fórmula contemporânea segundo a qual todos possuímos um “lado escuro” que deveríamos aprender a aceitar. A sombra não corresponde simplesmente ao mal. Ela se constitui em relação àquilo que a consciência admite como pertencente ao eu.

Se construo uma identidade baseada na docilidade, minha agressividade pode ser empurrada para regiões que não reconheço como minhas. Se minha identidade depende de ser intelectualmente independente, determinadas necessidades afetivas podem tornar-se intoleráveis. Se preciso acreditar que sou uma pessoa excepcionalmente altruísta, minha inveja talvez encontre poucas possibilidades de reconhecimento consciente. Mas o processo também pode ocorrer de modo inverso. Uma pessoa educada para considerar ambição, sensualidade, assertividade ou exuberância como moralmente suspeitas pode relegar justamente essas potências à sombra.

É por essa razão que a sombra não pode ser confundida com um inventário fixo de defeitos.

Ela é uma relação.

Mais precisamente, ela emerge da distância entre a totalidade potencial da personalidade e aquilo que a configuração consciente do sujeito consegue reconhecer como pertencente a si.

Essa formulação introduz uma consequência que considero decisiva: quando a consciência se modifica, a sombra também precisa ser pensada novamente.

A integração de uma sombra não elimina o fenômeno da sombra.

O sujeito não retira progressivamente objetos de um depósito inconsciente até deixá-lo vazio. Ao contrário, cada transformação relevante na estrutura consciente altera os limites entre o que pode e o que não pode ser reconhecido.

Essa observação é particularmente importante quando relacionamos sombra e aprendizado.

Aprender também reorganiza aquilo que não vemos

Aprender não significa apenas acrescentar informações a uma consciência que permanece estruturalmente idêntica. Alguns aprendizados modificam as categorias através das quais interpretamos a experiência. Depois deles, determinados acontecimentos já não podem ser percebidos da maneira anterior.

Uma pessoa que aprende a reconhecer manipulação emocional passa a reinterpretar situações que anteriormente classificava como cuidado. Alguém que adquire autonomia econômica pode descobrir aspectos de sua personalidade que permaneciam invisíveis enquanto dependia materialmente de outras pessoas. Uma pessoa que ocupa pela primeira vez uma posição de autoridade pode encontrar em si impulsos de controle que nunca haviam surgido quando sua posição social era subordinada.

O conhecimento não apenas ilumina aquilo que já estava ali. Em certas circunstâncias, ele altera as condições nas quais novos conteúdos se tornam possíveis.

É por isso que considero insuficiente imaginar a integração da sombra como uma trajetória linear. A pessoa que realiza um importante trabalho de autoconhecimento aos trinta anos não possuirá necessariamente a mesma organização psíquica aos cinquenta. Entre esses dois momentos haverá experiências, perdas, mudanças corporais, transformações de valores, deslocamentos sociais, relações, responsabilidades e aquisições intelectuais que modificarão aquilo que sua consciência considera aceitável, desejável ou ameaçador.

Cada nova identidade consciente produz novas fronteiras.

E toda fronteira cria uma exterioridade.

A sombra, portanto, possui uma história.

Ela é parcialmente reformulada à medida que a pessoa aprende.

Isso significa também que determinados conteúdos antes sombrios podem ser integrados e perder grande parte de sua carga, enquanto outros emergem precisamente porque uma nova posição existencial os tornou relevantes. Alguém pode passar anos integrando sua vulnerabilidade e, após conquistar poder, descobrir que agora precisa confrontar sua crueldade. Pode aprender a defender seus limites e posteriormente perceber que transformou proteção em rigidez. Pode libertar uma ambição reprimida e depois descobrir que passou a organizar o próprio valor exclusivamente pela conquista.

Pode superar uma dependência e, anos mais tarde, perceber que sua independência se tornou incapacidade de intimidade. Nesse sentido, quase toda virtude possui a possibilidade de produzir uma nova sombra quando se torna unilateral.

A autonomia pode produzir insensibilidade, a compaixão pode ocultar necessidade de controle. a disciplina pode converter-se em tirania, a liberdade pode funcionar como defesa contra o vínculo, a espiritualidade pode oferecer uma linguagem sublime para evitar conflitos concretos.

A inteligência pode tornar-se um dispositivo de afastamento da experiência.

Até mesmo o autoconhecimento pode produzir uma sombra própria.

Talvez esta seja uma das razões pelas quais a consciência psicológica não deveria ser confundida com virtude moral. Conhecer conceitos psicológicos não imuniza ninguém contra projeção, narcisismo ou crueldade. Em alguns casos, fornece apenas um vocabulário mais sofisticado para justificá-los.

É precisamente aqui que Sontag retorna com força inesperada.

Quanto mais hábil se torna o intérprete, maior precisa ser sua capacidade de suspeitar de sua própria interpretação.

Jung e Sontag não precisam concordar

A relação entre Jung e Sontag torna-se intelectualmente interessante justamente quando resistimos à tentação de reconciliá-los rapidamente.

A psicologia de Jung depende profundamente da interpretação. Sonhos, imagens, símbolos religiosos, fantasias, mitos e projeções são considerados manifestações que podem exigir leitura e elaboração. Há algo que se apresenta de forma indireta e cuja relação com a consciência precisa ser investigada.

Sontag, por sua vez, desconfia do momento em que o intérprete passa a acreditar que o significado produzido por sua leitura é mais verdadeiro do que aquilo que está diante dele. Levado para o terreno do autoconhecimento, o paradoxo se torna fértil.

Sem interpretação, uma experiência pode permanecer opaca e continuar determinando nossas ações sem que compreendamos sua lógica. Com interpretação excessiva, podemos transformar a experiência numa espécie de cadáver conceitual, perfeitamente classificado e completamente separado da vida que pretendíamos compreender.

Talvez a integração da sombra exija justamente a alternância entre esses dois movimentos.

Primeiro, alguma capacidade de permanecer diante da experiência antes de reduzi-la. Depois, a tentativa de compreendê-la. Em seguida, a disposição para revisar a compreensão produzida. Finalmente, talvez, a capacidade de agir de maneira diferente quando uma configuração semelhante reaparecer.

É nesse último momento que o aprendizado se torna particularmente relevante. A prova de que uma experiência foi integrada não está apenas na qualidade da narrativa que conseguimos produzir sobre ela. Está também na transformação de nossa relação com acontecimentos futuros.

Se compreendi intelectualmente minha tendência a projetar abandono, mas continuo interpretando toda demora como rejeição, meu conhecimento ainda possui pouca eficácia transformadora.

Se reconheço que minha agressividade foi reprimida durante décadas, integrar esse conteúdo não significa celebrar explosões de raiva. Significa desenvolver formas conscientes de assertividade, delimitação e conflito.

A integração é verificável, em alguma medida, pela ampliação de possibilidades. Aquilo que antes só podia aparecer como sintoma, explosão, repetição ou projeção passa a possuir outras formas de expressão.É nesse sentido que transformar experiência em sabedoria envolve aprendizado.

Sabedoria não é apenas saber mais sobre si.

É possuir maior número de respostas possíveis diante daquilo que antes provocava uma resposta praticamente automática.

O inconsciente chega antes do intérprete

Existe ainda uma ironia curiosa na trajetória intelectual de Sontag. Embora tenha se tornado uma das figuras paradigmáticas da ensaística analítica do século XX, sua relação com a ficção e com o território onírico esteve presente desde o início. Seu primeiro romance, The Benefactor, já se estrutura em torno da interferência entre sonhos e realidade. Décadas mais tarde, Sontag reconheceria que temas que atravessariam posteriormente sua obra já estavam presentes naquele livro antes que ela possuísse plena consciência do alcance deles.

Essa observação permite uma aproximação particularmente interessante com Jung sem que seja necessário transformar Sontag retrospectivamente numa autora junguiana. Talvez uma obra possa saber algo antes que seu autor consiga formulá-lo conceitualmente.Talvez também façamos isso conosco. Agimos antes de compreender. Escolhemos antes de conhecer inteiramente os critérios da escolha. Produzimos imagens, desejos e aversões cujo sentido somente se torna parcialmente inteligível muitos anos depois.

O ego gosta de pensar que ocupa a posição de autor porque a consciência costuma chegar acompanhada pela sensação de autoria. Entretanto, grande parte da vida psíquica já estava em movimento quando a explicação finalmente apareceu.

Nesse sentido, interpretar não significa necessariamente descobrir uma causa escondida. Pode significar chegar atrasado a um processo que já vinha produzindo consequências.

A experiência antecede muitas vezes sua inteligibilidade.

E talvez por isso seja necessário preservar algum espaço para aquilo que ainda não sabemos interpretar.

O I Ching e uma filosofia sem ponto final

A relação de Jung com o I Ching oferece um terceiro movimento para esse problema. Não pretendo reduzir o Livro das Mutações a uma antecipação da psicologia analítica, tampouco identificar yin com sombra ou yang com consciência. Essas equivalências seriam intelectualmente pobres e historicamente inadequadas.

O que me interessa é outra coisa: a concepção de realidade implicada na mutação.

Os hexagramas do I Ching não descrevem essências imóveis. Eles representam configurações, relações e possibilidades de transformação. O mundo que aparece ali não é constituído por identidades que finalmente alcançam sua forma definitiva, mas por situações cuja estabilidade é sempre relativa.

A própria sequência tradicional oferece uma imagem extraordinária desse princípio. O hexagrama 63, Jì Jì, costuma ser traduzido como “Depois da Conclusão”. Seria, segundo uma expectativa linear, o lugar lógico para terminar. Há uma ordem aparentemente alcançada, uma travessia completada.

Mas o livro não termina.

Depois de “Depois da Conclusão” aparece o hexagrama 64, Wèi Jì, “Antes da Conclusão”.

A sequência termina diante de algo ainda incompleto.

Não considero necessário transformar essa organização numa mensagem psicológica secreta sobre individuação. Sua potência filosófica é suficiente. A estrutura final do livro recusa que a estabilidade seja confundida com encerramento.

É exatamente esse princípio que modifica minha maneira de pensar a integração da sombra. Talvez a integração não seja uma conclusão. Talvez seja uma competência adquirida dentro de um sistema que continuará mudando.

Integrar determinado conteúdo significa aumentar nossa capacidade de reconhecê-lo, simbolizá-lo e estabelecer uma relação menos compulsiva com ele. Contudo, a pessoa que emerge desse processo já não é exatamente a mesma que o iniciou. Novas experiências irão alterar sua posição. Aquilo que agora pode ser integrado à consciência modificará a própria consciência e, consequentemente, modificará também a região daquilo que ela não consegue reconhecer.

Há aqui uma circularidade inevitável. A consciência transforma a sombra ao integrá-la. A integração transforma a consciência. A consciência transformada estabelece novas relações com o mundo. Essas novas relações produzem novas experiências. E as novas experiências revelam novas insuficiências da consciência. O processo não retorna ao mesmo ponto. Talvez se pareça mais com uma espiral do que com um círculo.

O erro de querer tornar-se completo

É nesse ponto que a linguagem contemporânea sobre “integração da sombra” me parece frequentemente excessivamente otimista. Ela pode insinuar que a pessoa suficientemente disciplinada conseguirá localizar seus traumas, integrar suas partes reprimidas e atingir uma versão relativamente estável de completude psicológica.

Mas o que exatamente significaria estar completo?

Se completude significar ausência de contradição, talvez seja uma fantasia incompatível com a própria complexidade da vida psíquica.

Uma identidade completamente coerente exigiria que nenhum novo acontecimento fosse capaz de produzir uma contradição relevante. Isso só seria possível se a pessoa deixasse de transformar-se ou se passasse a deformar sistematicamente toda experiência nova para preservar intacta a narrativa anterior.

A ruptura, nesse sentido, pode ser um sinal de vitalidade.

Ela demonstra que a realidade conseguiu introduzir alguma coisa que o sistema anterior não conseguia assimilar.

O problema não é romper.

O problema é não conseguir aprender com a ruptura.

Hoje, por isso, eu formularia o desenvolvimento psicológico de uma maneira diferente. Não diria que me tornei mais completa. Diria que me tornei mais capaz de reconhecer aquilo que emerge quando minha completude imaginária volta a quebrar.

Essa diferença é importante. A primeira formulação apresenta o eu como obra em direção ao acabamento.A segunda admite que o acabamento talvez seja precisamente uma construção imaginária. O amadurecimento não consistiria em impedir novas fragmentações, mas em desenvolver instrumentos mais refinados para habitar provisoriamente o período em que a antiga organização já não explica a experiência e a nova ainda não se formou completamente.

Esse intervalo é cognitivamente desconfortável porque nele nossas categorias deixam de funcionar com eficiência. Contudo, é também um dos lugares mais férteis para o aprendizado.

A mente precisa revisar seus modelos quando aquilo que encontra já não pode ser satisfatoriamente assimilado aos modelos anteriores.

Talvez a sombra participe repetidamente desse processo como aquilo que perturba a autodescrição vigente.

A sombra não precisa vencer e não precisa morrer

Há ainda um problema na metáfora da luz e da sombra quando ela se transforma numa moral simplificada. Se a sombra for tratada como escuridão e a consciência como luz, integrar pode ser facilmente confundido com iluminar até que nada escuro permaneça.

Mas uma psique inteiramente iluminada seria uma contradição conceitual. No instante em que delimitamos uma posição consciente, produzimos também alguma exterioridade em relação a ela.

A questão ética, portanto, não é eliminar a sombra.

É modificar nossa relação com aquilo que nela aparece.

Reconhecer agressividade não significa tornar-se agressivo. Significa ampliar a possibilidade de que a agressividade não precise aparecer apenas de maneira clandestina.Reconhecer inveja não significa legitimá-la. Pode significar utilizá-la como informação sobre um desejo, uma comparação ou uma sensação de insuficiência que antes precisavam ser projetados.

Reconhecer capacidade de crueldade não é declarar equivalência moral entre crueldade e bondade. É retirar da própria autoimagem a confortável ficção de que determinados comportamentos pertencem apenas aos outros.

A integração não dissolve a responsabilidade. Ela pode, ao contrário, torná-la possível.

Se uma ação é sempre atribuída a forças externas, à sombra, ao trauma, ao arquétipo ou ao outro, a linguagem psicológica torna-se um sofisticado mecanismo de desresponsabilização. O objetivo de conhecer um conteúdo inconsciente não pode ser encontrar uma desculpa mais elegante para obedecê-lo. Conhecer deveria ampliar a margem de escolha.

Essa talvez seja uma definição possível de aprendizagem psicológica.

A interpretação também possui uma sombra

A essa altura, contudo, a advertência de Sontag precisa retornar pela última vez.

É possível transformar todo esse processo numa nova obsessão interpretativa.

Uma pessoa pode começar a tratar cada encontro como projeção, cada conflito como arquétipo, cada acaso como sinal, cada desejo como sintoma, cada sofrimento como missão evolutiva. A vida se transforma num comentário interminável sobre a própria vida.

Há algo de paradoxal nisso.

A busca pelo autoconhecimento pode tornar-se uma maneira de permanecer excessivamente voltado para o próprio eu. Nem tudo aquilo que acontece conosco é necessariamente uma mensagem destinada a nós. Nem todo outro é um espelho. Nem toda coincidência exige metafísica. Nem toda dor precisa imediatamente transformar-se em ensinamento.

Certas experiências talvez precisem conservar por algum tempo sua opacidade para que não sejam violentadas por uma explicação prematura.

Talvez uma das formas mais maduras de consciência seja suportar temporariamente não saber.

Essa possibilidade interessa particularmente porque modifica também nossa relação com aprendizado. Aprender não é apenas acumular respostas corretas. É também aperfeiçoar a qualidade das perguntas e aumentar nossa tolerância ao intervalo entre uma pergunta e uma resposta ainda insuficiente.

É possível saber muito e continuar epistemologicamente imaturo.

Também é possível reconhecer os limites do próprio conhecimento e, justamente por isso, aproximar-se de um fenômeno com maior precisão.

Talvez seja esse o ponto em que Sontag, Jung e o I Ching, sem pertencerem à mesma tradição e sem precisarem ser reconciliados, passam a operar produtivamente uns sobre os outros.

Jung introduz a suspeita de que nossa autodescrição não coincide com a totalidade daquilo que nos constitui.

Sontag acrescenta a suspeita de que nossa interpretação dessa discrepância também pode tornar-se autoritária, redutora ou defensiva.

O I Ching acrescenta um terceiro deslocamento ao lembrar, por sua própria lógica de mutação, que qualquer configuração alcançada continua submetida à mudança.

Uma consciência suficientemente madura precisaria, portanto, suportar três humilhações.

A primeira é reconhecer que não sabe inteiramente quem é.

A segunda é reconhecer que suas explicações sobre aquilo que não sabe também podem estar equivocadas.

A terceira é reconhecer que mesmo uma compreensão verdadeira não permanecerá necessariamente suficiente para sempre.

Talvez seja precisamente essa terceira humilhação que transforme conhecimento em sabedoria.

Porque sabedoria não seria possuir a interpretação definitiva de si.

Seria aprender a reformular-se sem precisar acreditar, a cada reformulação, que finalmente chegou à forma final.

O hexagrama derradeiro permanece, então, como uma imagem particularmente fértil.

Depois da conclusão, outra vez antes da conclusão.

Depois da integração, outra região ainda não integrada.

Depois da compreensão, uma experiência capaz de exigir categorias novas.

Depois de acreditarmos que nos conhecemos, algo emerge e demonstra que nossa autobiografia era apenas provisoriamente suficiente.

Hoje considero que esse processo não diminui o valor do autoconhecimento. Ao contrário, torna-o mais sério.

Conhecer-se talvez não seja transformar o interior em território completamente cartografado, mas desenvolver uma relação mais inteligente com aquilo que continuamente escapa aos mapas anteriores.

E talvez uma vida psiquicamente mais integrada não seja aquela em que nenhuma nova sombra se forma, mas aquela em que precisamos cada vez menos expulsar partes de nós mesmos para preservar uma ideia rígida de quem deveríamos ser.

Não me tornei completa.

Tornei-me mais capaz de reconhecer aquilo que emerge quando minha completude imaginária volta a quebrar.

E começo a suspeitar de que é justamente nessa capacidade de permanecer diante da ruptura, aprender com ela e permitir que ela reformule aquilo que até então chamávamos de eu que uma forma menos triunfal, mas talvez mais profunda, de individuação se torna possível.

Liorah Zahav

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