Há alguns dias, durante uma reunião da Atmana pelo Zoom sobre os mistérios do Egito, experienciei uma situação que me lançou numa pequena odisseia de reflexões. Coincidentemente, ou sincronisticamente, se quisermos utilizar a linguagem junguiana, venho lendo um dos muitos documentos desclassificados hoje disponíveis nos arquivos da CIA: Analysis and Assessment of Gateway Process, de 1983. Trata-se, mais precisamente, de uma avaliação produzida no contexto do US Army Intelligence and Security Command acerca do Gateway Experience, método desenvolvido pelo Monroe Institute para indução de estados alterados de consciência, incluindo experiências descritas como out-of-body experiences. O documento é fascinante não porque constitua uma comprovação científica da projeção astral, mas porque revela até que ponto, no contexto da Guerra Fria, instituições militares e de inteligência estavam dispostas a investigar os limites da consciência humana.
Pretendo escrever separadamente sobre esses arquivos, porque eles merecem um texto próprio. Mas naquela noite eu estava completamente hipnotizada pela masterclass. Estudar o Egito é trabalho para mais de uma vida. Entre as ideias apresentadas estava uma interpretação esotérica dos eclipses como momentos de alinhamento e abertura, nos quais determinadas práticas poderiam favorecer estados de consciência não ordinários; falou-se também da relação dos egípcios com o Sol, com Amon-Ra, Sekhmet e com a possibilidade de o indivíduo entrar em ressonância com forças maiores do que sua identidade ordinária. Historicamente, é importante distinguir essa leitura iniciática daquilo que a egiptologia consegue demonstrar: os próprios registros egípcios explícitos de eclipses solares são surpreendentemente escassos, mas a imagem simbólica continuou reverberando em mim.
Uma das premissas apresentadas naquele encontro era a de que determinados estados de alinhamento seriam favorecidos quando nos aproximamos daquilo que chamamos de amor não necessariamente o amor romântico, mas um estado de menor separação entre o indivíduo, a natureza e o cosmos. Independentemente de tomarmos isso literalmente ou simbolicamente, a ideia me interessou: até que ponto nossa percepção da realidade depende do estado interno a partir do qual a observamos?
Foi então que uma pergunta feita por uma participante me lançou naquela que passei a chamar, com alguma ironia, de minha odisseia de abracadabra do inconsciente.
Talvez essa pergunta tenha me atravessado com tanta força porque venho tentando acessar camadas cada vez mais profundas da minha própria psique. Desde criança experiencio episódios que interpreto como projeções astrais. Não apresento isso como prova objetiva acerca da estrutura da realidade; é simplesmente a linguagem que encontrei para uma experiência subjetiva recorrente desde muito cedo. Costumo dizer que sinto como se pudesse transitar entre dois mundos: o físico e o etéreo. Quanto mais amplio minha investigação da consciência, mais difícil me parece voltar a performar certas convenções do sistema com a mesma naturalidade de antes.
Também venho realizando um trabalho de integração da sombra. E há uma coisa que dificilmente pode ser romantizada nesse processo: encontrar o inconsciente não significa encontrar somente luz. Na psicologia junguiana, a sombra é justamente aquilo que a personalidade consciente preferiria não reconhecer em si; integrá-la não significa destruí-la, mas suportar o desconforto de perceber que somos mais contraditórios do que a imagem que construímos de nós mesmos.
Mas voltemos à pergunta. Ela era aproximadamente esta:
“Uma mulher sem útero, ou com um útero adoecido, ficaria energeticamente impedida ou prejudicada de realizar determinado alinhamento?”
Apesar da compostura quase inabalável da professora, tive a impressão — pelos movimentos dos olhos e por alguns gestos faciais — de que a pergunta também a havia surpreendido. Eu, particularmente, fiquei atônita. Depois ri. Mais tarde, porém, percebi que aquela pergunta aparentemente simples continha séculos de história.
Porque ela parte de uma associação muito antiga: a ideia de que existe uma espécie de completude feminina alojada em um órgão reprodutor.
E aí surge a questão que realmente me interessa: desde quando uma função biológica passou a ser confundida com uma definição ontológica?
O útero possui uma função biológica extraordinária. Mas possuir uma função não significa possuir a essência da pessoa que o carrega. O fígado não contém nossa coragem, embora antigas cosmologias tenham relacionado órgãos a estados da alma; o coração não abriga literalmente o amor, embora continue sendo seu símbolo; e o útero não precisa conter aquilo que chamamos de feminilidade, criatividade ou potência espiritual apenas porque é capaz de participar da gestação.
Na minha gramática espiritual, o corpo é veículo, interface, matéria por meio da qual experimentamos esta realidade. Na antroposofia de Rudolf Steiner, por exemplo — que menciono aqui como sistema espiritual e não como teoria científica — o ser humano sequer é concebido como redutível ao corpo físico: fala-se também em corpo etérico, corpo astral e no princípio do Eu. Mesmo dentro dessa cosmologia, portanto, parece estranho imaginar que a totalidade espiritual de uma pessoa pudesse desaparecer juntamente com a retirada de um único órgão.
Talvez o problema esteja numa velha lógica utilitarista aplicada ao corpo feminino. Quando uma sociedade interpreta durante séculos a mulher primordialmente a partir de sua capacidade reprodutiva, torna-se fácil confundir capacidade com destino. A própria Organização Mundial da Saúde distingue características biológicas das normas e papéis socialmente construídos em torno do gênero, e pesquisas contemporâneas mostram que mulheres que escolhem não ter filhos ainda enfrentam estigmas justamente porque determinadas culturas continuam associando mulheridade e maternidade como se fossem praticamente sinônimos.
Entretanto, a pulsão criadora de uma mulher não começa nem termina em sua capacidade de procriação. Gerar não é sinônimo de gestar.
Podemos gerar crianças, evidentemente. Mas também podemos gerar ideias, objetos, livros, relações, movimentos, descobertas, mundos imaginários, obras, espaços de cuidado. Erik Erikson utilizou o conceito de generatividadejustamente para descrever essa capacidade humana de produzir e transmitir algo que ultrapassa o próprio indivíduo; e a literatura psicológica enfatiza que a parentalidade não é condição necessária nem suficiente para que alguém seja generativo.
Em sociedades nas quais a sobrevivência imediata da espécie já não depende de cada mulher necessariamente reproduzir-se, podemos finalmente formular uma pergunta que durante muito tempo pareceu proibida: para onde eu quero direcionar minha energia criadora?
A maternidade não é uma verdade psicológica universal do gênero feminino. Para algumas mulheres, é desejo profundo, vocação e uma das experiências mais transformadoras da existência. Para outras, simplesmente não é. Isso não estabelece uma hierarquia entre elas.
Aliás, procriar e educar são coisas radicalmente diferentes.
Criar uma criança exige disponibilidade emocional, responsabilidade, renúncias, capacidade de suportar incerteza e, talvez sobretudo, a compreensão de que um filho não é uma extensão narcísica dos pais. Podemos oferecer linguagem, afeto, limites, segurança e valores; não podemos escolher quem aquela pessoa será. Tampouco existe garantia de que nossos filhos compreenderão nossas limitações, nossa história ou os lugares em que falhamos tentando acertar. Ainda assim, espera-se dos pais – e frequentemente de maneira especialmente severa das mães – uma espécie de perfeição retroativa. Foi aí que minha reflexão chegou à própria história das mulheres.
Durante muito tempo, o útero não foi apenas um órgão: tornou-se quase um argumento. A própria história da palavra “histeria” é reveladora. Sua etimologia remonta ao grego hystéra, útero, e durante séculos comportamentos e sintomas femininos extremamente diversos foram interpretados a partir de teorias que vinculavam mulher, aparelho reprodutivo e instabilidade psíquica. A medicina gradualmente abandonou essas concepções, mas o imaginário cultural sobrevive com muito mais facilidade do que uma categoria diagnóstica.
Pensei também em Rosemary Kennedy. Sua história não deve ser simplificada como a de uma mulher punida por rejeitar maternidade — não foi isso que aconteceu. Talvez ela seja ainda mais perturbadora exatamente como foi: uma jovem com dificuldades intelectuais e comportamentais submetida, por decisão do pai e sob a autoridade da medicina de sua época, a uma lobotomia que a deixou permanentemente incapacitada. O que sua história me faz perguntar é quantas mulheres, muito menos protegidas por nome, dinheiro ou posição social, tiveram sua subjetividade simplesmente interpretada como inconveniência.
Quantas não possuíam sequer vocabulário para dizer: eu não quero isso; eu não consigo isso; eu quero outra vida; eu desejo outra coisa?
Hoje talvez não chamemos tudo de histeria, mas criamos outros vocabulários rápidos. Há uma popularização quase industrial da linguagem psicológica: qualquer conflito transforma alguém em “narcisista”; qualquer discordância mais confusa vira “gaslighting”; comportamentos humanos complexos são comprimidos em diagnósticos improvisados. Não estou negando a existência real de transtornos ou de abuso psicológico. Estou questionando outra coisa: quando foi que compreender uma pessoa foi substituído por etiquetá-la? E isso também atravessa a maternidade.
Uma mulher pode ser mãe e amar profundamente seus filhos, e ainda assim não possuir todos os recursos emocionais que culturalmente esperamos dela. Pode ter sido criada por uma mulher igualmente limitada, que por sua vez foi criada por outra. Há histórias que atravessam gerações não porque estejam magicamente armazenadas em um órgão, mas porque famílias transmitem comportamentos, silêncios, medos, modos de amar, relações com dinheiro, autoridade, corpo e afeto.
Há também uma dimensão biológica intrigante nessa continuidade. Não é correto dizer, literalmente, que nossas avós já carregavam “nossos embriões”. Mas quando uma avó estava grávida de uma filha, as células germinativas dessa filha (aquelas das quais se originaria sua reserva de óvulos) já começavam a se desenvolver dentro do feto.
A imagem continua sendo vertiginosa.
Três gerações, por um momento, fisicamente encaixadas umas dentro das outras.
Isso não prova que memórias ou traumas sejam armazenados no útero. A investigação sobre transmissão intergeracional envolve mecanismos culturais, relacionais, fisiológicos e possivelmente epigenéticos, e a ciência ainda é muito mais cautelosa do que certas simplificações populares da epigenética sugerem. Mas como símbolo, essa continuidade corporal me faz olhar com atenção para minha linhagem feminina.
Muitas vezes reconheço algo de minha mãe e de minhas avós em mim, a partir daquilo que conheci de suas histórias. Minhas avós vieram de famílias de imigrantes europeus e atravessaram sociedades nas quais o espaço oferecido às mulheres era muito menor. Maternidade, casamento, dependência econômica, patrimônio e obediência não eram apenas escolhas privadas; eram estruturas sociais.
Às vezes me pergunto se minhas duas avós foram, de fato, talhadas para a maternidade.E essa pergunta não é uma acusação.Talvez seja precisamente o contrário: uma tentativa tardia de lhes devolver complexidade.
Eram mulheres que eu percebia como sábias, intuitivas, quase curandeiras. Nunca tive a impressão de que a instituição do casamento ocupasse necessariamente o altar central de suas vidas interiores. Curiosamente, quando passei a estudar simbolismo, descobri que atribuo às duas o mesmo arcano que reconheço em mim: a Papisa, ou Sacerdotisa. Não proponho isso como ciência da personalidade; utilizo o Tarot como linguagem simbólica. Ainda assim, o arquétipo me pareceu quase óbvio retroativamente: interioridade, silêncio, conhecimento não exibido, mundo subterrâneo, aquilo que sabe sem necessariamente explicar como sabe.
Minha mãe era diferente. Se eu precisasse descrevê-la arquetipicamente, diria que havia nela algo de uma verdadeira matriarca. Com ela experimentei a conexão e o amor mais profundos da minha vida. Embora ela não esteja mais no plano material, ainda sinto entre nós alguma coisa que, na falta de linguagem melhor, chamo de fio etéreo.
E talvez seja justamente por ter conhecido um amor materno tão profundo que a ausência do desejo de maternidade em mim se tornou uma pergunta interessante.
Desde muito pequena, minha pulsão de criação aparecia em outro lugar: no plano mental, imaginativo, artístico, espiritual. A ideia de ter filhos sempre me pareceu estranha, quase pertencente à biografia de outra pessoa. Eu não me interessava por bonecas ou bebês. Não havia rejeição; simplesmente não havia chamado.
Mais tarde surgiu um aparente paradoxo: crianças frequentemente se aproximavam de mim com uma ternura que me surpreendia. Algumas de maneira tão insistente que, confesso, já precisei me esconder de algumas delas, o que ainda acho bastante engraçado.
Durante algum tempo eu poderia ter interpretado isso a partir daquele velho raciocínio: “talvez exista uma maternidade reprimida em algum lugar”. Hoje acho essa conclusão intelectualmente preguiçosa. Ter ternura por crianças não é o mesmo que desejar ser mãe.
Podemos reconhecer a vulnerabilidade e a sacralidade da infância, sentir desejo de proteção, curiosidade ou afeto e, simultaneamente, saber que não desejamos assumir a responsabilidade permanente de educar outro ser humano. Talvez justamente por levar a infância tão a sério eu jamais tenha conseguido tratar a maternidade como uma etapa obrigatória e automática da vida. E há ainda um último elemento.
Apesar de sempre ter me identificado confortavelmente como mulher, meu útero nunca ocupou um lugar particularmente importante na construção dessa identidade. Ele simplesmente estava ali. Recentemente, precisei removê-lo. E aconteceu algo que, dentro da narrativa convencional sobre o corpo feminino, talvez parecesse paradoxal: não me senti menos inteira. Senti-me mais inteira.
Depois da cirurgia, aquela pulsão criativa intensa que eu reconhecia em mim desde criança começou a reaparecer. Não ofereço minha experiência individual como regra biológica para outras mulheres. Os resultados de uma histerectomia variam de pessoa para pessoa; revisões científicas, inclusive, não encontram uma perda inevitável da função sexual após o procedimento e mostram trajetórias bastante heterogêneas.
Mas, no meu caso, aquilo que ocorreu no corpo encontrou uma correspondência subjetiva poderosa. Foi então que compreendi por que aquela pergunta da masterclass havia me afetado tanto.Eu estava procurando uma resposta energética para uma pergunta que talvez tivesse começado muito antes no terreno social.
O útero é um órgão. Não é uma sentença ontológica.
Sua presença não torna alguém mais mulher. Sua ausência não torna alguém menos mulher. Ele pode gestar uma vida sem necessariamente ser a sede da criatividade; pode adoecer sem que a alma adoeça com ele; pode ser retirado sem que aquilo que uma pessoa reconhece como sua dimensão feminina, espiritual ou criadora seja retirado junto.
Talvez meu processo atual não seja propriamente uma depuração, palavra que ainda sugere que alguma coisa precisa ser expulsa para que outra se torne pura. Talvez seja uma transmutação.
Na alquimia, afinal, transformar não significa negar a matéria anterior. Significa submetê-la ao fogo suficiente para que outra configuração se torne possível.
E talvez tenha sido essa a primeira epifania que aquela pergunta, involuntariamente, me ofereceu: o corpo muda; nós atribuímos significado à mudança. E, às vezes, quando um símbolo que acreditávamos indispensável desaparece, descobrimos que aquilo que procurávamos nele nunca esteve confinado ali.
Talvez a segunda epifania mais desconcertante tenha sido perceber que eu estava perguntando o que havia perdido quando deveria estar perguntando o que aquela perda havia desocupado dentro de mim. Passamos a vida confundindo aquilo que carregamos com aquilo que somos. Carregamos órgãos, sobrenomes, histórias familiares, expectativas, arquétipos, feridas, papéis sociais e até sonhos que talvez tenham sido sonhados por outras pessoas antes de nós; depois os incorporamos tão profundamente que sua ausência parece anunciar uma mutilação do próprio ser. Mas talvez algumas perdas não produzam vazios: produzam espaço. E foi somente quando meu corpo deixou de carregar aquilo que durante séculos foi transformado em metáfora da completude feminina que compreendi algo quase absurdamente simples: eu nunca habitei o meu útero; era o meu útero que habitava temporariamente em mim. Minha consciência, minha capacidade de amar, criar, intuir, desejar, transformar matéria em linguagem e experiência em significado permaneceram. Talvez a verdadeira iniciação não seja acrescentar continuamente coisas à identidade, mas descobrir, uma a uma, quais delas podem desaparecer sem que desapareçamos junto. E talvez seja justamente nesse instante, quando aquilo que julgávamos indispensável deixa de existir e ainda assim permanecemos, que encontramos pela primeira vez alguma coisa próxima daquilo que somos.
-Liorah Zahav

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