The other Aleph 𓋹

Essays and musings written on quantum papyrus. Gathers fragments rather than answers.

  • Quantum leap uterino

    Há alguns dias, durante uma reunião da Atmana pelo Zoom sobre os mistérios do Egito, experienciei uma situação que me lançou numa pequena odisseia de reflexões. Coincidentemente, ou sincronisticamente, se quisermos utilizar a linguagem junguiana,  venho lendo um dos muitos documentos desclassificados hoje disponíveis nos arquivos da CIA: Analysis and Assessment of Gateway Process, de 1983. Trata-se, mais precisamente, de uma avaliação produzida no contexto do US Army Intelligence and Security Command acerca do Gateway Experience, método desenvolvido pelo Monroe Institute para indução de estados alterados de consciência, incluindo experiências descritas como out-of-body experiences. O documento é fascinante não porque constitua uma comprovação científica da projeção astral, mas porque revela até que ponto, no contexto da Guerra Fria, instituições militares e de inteligência estavam dispostas a investigar os limites da consciência humana. 

    Pretendo escrever separadamente sobre esses arquivos, porque eles merecem um texto próprio. Mas naquela noite eu estava completamente hipnotizada pela masterclass. Estudar o Egito é trabalho para mais de uma vida. Entre as ideias apresentadas estava uma interpretação esotérica dos eclipses como momentos de alinhamento e abertura, nos quais determinadas práticas poderiam favorecer estados de consciência não ordinários; falou-se também da relação dos egípcios com o Sol, com Amon-Ra, Sekhmet e com a possibilidade de o indivíduo entrar em ressonância com forças maiores do que sua identidade ordinária. Historicamente, é importante distinguir essa leitura iniciática daquilo que a egiptologia consegue demonstrar: os próprios registros egípcios explícitos de eclipses solares são surpreendentemente escassos, mas a imagem simbólica continuou reverberando em mim. 

    Uma das premissas apresentadas naquele encontro era a de que determinados estados de alinhamento seriam favorecidos quando nos aproximamos daquilo que chamamos de amor  não necessariamente o amor romântico, mas um estado de menor separação entre o indivíduo, a natureza e o cosmos. Independentemente de tomarmos isso literalmente ou simbolicamente, a ideia me interessou: até que ponto nossa percepção da realidade depende do estado interno a partir do qual a observamos?

    Foi então que uma pergunta feita por uma participante me lançou naquela que passei a chamar, com alguma ironia, de minha odisseia de abracadabra do inconsciente.

    Talvez essa pergunta tenha me atravessado com tanta força porque venho tentando acessar camadas cada vez mais profundas da minha própria psique. Desde criança experiencio episódios que interpreto como projeções astrais. Não apresento isso como prova objetiva acerca da estrutura da realidade; é simplesmente a linguagem que encontrei para uma experiência subjetiva recorrente desde muito cedo. Costumo dizer que sinto como se pudesse transitar entre dois mundos: o físico e o etéreo. Quanto mais amplio minha investigação da consciência, mais difícil me parece voltar a performar certas convenções do sistema com a mesma naturalidade de antes.

    Também venho realizando um trabalho de integração da sombra. E há uma coisa que dificilmente pode ser romantizada nesse processo: encontrar o inconsciente não significa encontrar somente luz. Na psicologia junguiana, a sombra é justamente aquilo que a personalidade consciente preferiria não reconhecer em si; integrá-la não significa destruí-la, mas suportar o desconforto de perceber que somos mais contraditórios do que a imagem que construímos de nós mesmos. 

    Mas voltemos à pergunta. Ela era aproximadamente esta:

    “Uma mulher sem útero, ou com um útero adoecido, ficaria energeticamente impedida ou prejudicada de realizar determinado alinhamento?”

    Apesar da compostura quase inabalável da professora, tive a impressão — pelos movimentos dos olhos e por alguns gestos faciais — de que a pergunta também a havia surpreendido. Eu, particularmente, fiquei atônita. Depois ri. Mais tarde, porém, percebi que aquela pergunta aparentemente simples continha séculos de história.

    Porque ela parte de uma associação muito antiga: a ideia de que existe uma espécie de completude feminina alojada em um órgão reprodutor.

    E aí surge a questão que realmente me interessa: desde quando uma função biológica passou a ser confundida com uma definição ontológica?

    O útero possui uma função biológica extraordinária. Mas possuir uma função não significa possuir a essência da pessoa que o carrega. O fígado não contém nossa coragem, embora antigas cosmologias tenham relacionado órgãos a estados da alma; o coração não abriga literalmente o amor, embora continue sendo seu símbolo; e o útero não precisa conter aquilo que chamamos de feminilidade, criatividade ou potência espiritual apenas porque é capaz de participar da gestação.

    Na minha gramática espiritual, o corpo é veículo, interface, matéria por meio da qual experimentamos esta realidade. Na antroposofia de Rudolf Steiner, por exemplo — que menciono aqui como sistema espiritual e não como teoria científica — o ser humano sequer é concebido como redutível ao corpo físico: fala-se também em corpo etérico, corpo astral e no princípio do Eu. Mesmo dentro dessa cosmologia, portanto, parece estranho imaginar que a totalidade espiritual de uma pessoa pudesse desaparecer juntamente com a retirada de um único órgão. 

    Talvez o problema esteja numa velha lógica utilitarista aplicada ao corpo feminino. Quando uma sociedade interpreta durante séculos a mulher primordialmente a partir de sua capacidade reprodutiva, torna-se fácil confundir capacidade com destino. A própria Organização Mundial da Saúde distingue características biológicas das normas e papéis socialmente construídos em torno do gênero, e pesquisas contemporâneas mostram que mulheres que escolhem não ter filhos ainda enfrentam estigmas justamente porque determinadas culturas continuam associando mulheridade e maternidade como se fossem praticamente sinônimos. 

    Entretanto, a pulsão criadora de uma mulher não começa nem termina em sua capacidade de procriação. Gerar não é sinônimo de gestar.

    Podemos gerar crianças, evidentemente. Mas também podemos gerar ideias, objetos, livros, relações, movimentos, descobertas, mundos imaginários, obras, espaços de cuidado. Erik Erikson utilizou o conceito de generatividadejustamente para descrever essa capacidade humana de produzir e transmitir algo que ultrapassa o próprio indivíduo; e a literatura psicológica enfatiza que a parentalidade não é condição necessária nem suficiente para que alguém seja generativo. 

    Em sociedades nas quais a sobrevivência imediata da espécie já não depende de cada mulher necessariamente reproduzir-se, podemos finalmente formular uma pergunta que durante muito tempo pareceu proibida: para onde eu quero direcionar minha energia criadora?

    A maternidade não é uma verdade psicológica universal do gênero feminino. Para algumas mulheres, é desejo profundo, vocação e uma das experiências mais transformadoras da existência. Para outras, simplesmente não é. Isso não estabelece uma hierarquia entre elas.

    Aliás, procriar e educar são coisas radicalmente diferentes.

    Criar uma criança exige disponibilidade emocional, responsabilidade, renúncias, capacidade de suportar incerteza e, talvez sobretudo, a compreensão de que um filho não é uma extensão narcísica dos pais. Podemos oferecer linguagem, afeto, limites, segurança e valores; não podemos escolher quem aquela pessoa será. Tampouco existe garantia de que nossos filhos compreenderão nossas limitações, nossa história ou os lugares em que falhamos tentando acertar. Ainda assim, espera-se dos pais – e frequentemente de maneira especialmente severa das mães – uma espécie de perfeição retroativa. Foi aí que minha reflexão chegou à própria história das mulheres.

    Durante muito tempo, o útero não foi apenas um órgão: tornou-se quase um argumento. A própria história da palavra “histeria” é reveladora. Sua etimologia remonta ao grego hystéra, útero, e durante séculos comportamentos e sintomas femininos extremamente diversos foram interpretados a partir de teorias que vinculavam mulher, aparelho reprodutivo e instabilidade psíquica. A medicina gradualmente abandonou essas concepções, mas o imaginário cultural sobrevive com muito mais facilidade do que uma categoria diagnóstica. 

    Pensei também em Rosemary Kennedy. Sua história não deve ser simplificada como a de uma mulher punida por rejeitar maternidade — não foi isso que aconteceu. Talvez ela seja ainda mais perturbadora exatamente como foi: uma jovem com dificuldades intelectuais e comportamentais submetida, por decisão do pai e sob a autoridade da medicina de sua época, a uma lobotomia que a deixou permanentemente incapacitada. O que sua história me faz perguntar é quantas mulheres, muito menos protegidas por nome, dinheiro ou posição social, tiveram sua subjetividade simplesmente interpretada como inconveniência.

    Quantas não possuíam sequer vocabulário para dizer: eu não quero isso; eu não consigo isso; eu quero outra vida; eu desejo outra coisa?

    Hoje talvez não chamemos tudo de histeria, mas criamos outros vocabulários rápidos. Há uma popularização quase industrial da linguagem psicológica: qualquer conflito transforma alguém em “narcisista”; qualquer discordância mais confusa vira “gaslighting”; comportamentos humanos complexos são comprimidos em diagnósticos improvisados. Não estou negando a existência real de transtornos ou de abuso psicológico. Estou questionando outra coisa: quando foi que compreender uma pessoa foi substituído por etiquetá-la? E isso também atravessa a maternidade.

    Uma mulher pode ser mãe e amar profundamente seus filhos, e ainda assim não possuir todos os recursos emocionais que culturalmente esperamos dela. Pode ter sido criada por uma mulher igualmente limitada, que por sua vez foi criada por outra. Há histórias que atravessam gerações não porque estejam magicamente armazenadas em um órgão, mas porque famílias transmitem comportamentos, silêncios, medos, modos de amar, relações com dinheiro, autoridade, corpo e afeto.

    Há também uma dimensão biológica intrigante nessa continuidade. Não é correto dizer, literalmente, que nossas avós já carregavam “nossos embriões”. Mas quando uma avó estava grávida de uma filha, as células germinativas dessa filha (aquelas das quais se originaria sua reserva de óvulos) já começavam a se desenvolver dentro do feto. 

    A imagem continua sendo vertiginosa.

    Três gerações, por um momento, fisicamente encaixadas umas dentro das outras.

    Isso não prova que memórias ou traumas sejam armazenados no útero. A investigação sobre transmissão intergeracional envolve mecanismos culturais, relacionais, fisiológicos e possivelmente epigenéticos, e a ciência ainda é muito mais cautelosa do que certas simplificações populares da epigenética sugerem. Mas como símbolo, essa continuidade corporal me faz olhar com atenção para minha linhagem feminina.

    Muitas vezes reconheço algo de minha mãe e de minhas avós em mim, a partir daquilo que conheci de suas histórias. Minhas avós vieram de famílias de imigrantes europeus e atravessaram sociedades nas quais o espaço oferecido às mulheres era muito menor. Maternidade, casamento, dependência econômica, patrimônio e obediência não eram apenas escolhas privadas; eram estruturas sociais.

    Às vezes me pergunto se minhas duas avós foram, de fato, talhadas para a maternidade.E essa pergunta não é uma acusação.Talvez seja precisamente o contrário: uma tentativa tardia de lhes devolver complexidade.

    Eram mulheres que eu percebia como sábias, intuitivas, quase curandeiras. Nunca tive a impressão de que a instituição do casamento ocupasse necessariamente o altar central de suas vidas interiores. Curiosamente, quando passei a estudar simbolismo, descobri que atribuo às duas o mesmo arcano que reconheço em mim: a Papisa, ou Sacerdotisa. Não proponho isso como ciência da personalidade; utilizo o Tarot como linguagem simbólica. Ainda assim, o arquétipo me pareceu quase óbvio retroativamente: interioridade, silêncio, conhecimento não exibido, mundo subterrâneo, aquilo que sabe sem necessariamente explicar como sabe.

    Minha mãe era diferente. Se eu precisasse descrevê-la arquetipicamente, diria que havia nela algo de uma verdadeira matriarca. Com ela experimentei a conexão e o amor mais profundos da minha vida. Embora ela não esteja mais no plano material, ainda sinto entre nós alguma coisa que, na falta de linguagem melhor, chamo de fio etéreo.

    E talvez seja justamente por ter conhecido um amor materno tão profundo que a ausência do desejo de maternidade em mim se tornou uma pergunta interessante.

    Desde muito pequena, minha pulsão de criação aparecia em outro lugar: no plano mental, imaginativo, artístico, espiritual. A ideia de ter filhos sempre me pareceu estranha, quase pertencente à biografia de outra pessoa. Eu não me interessava por bonecas ou bebês. Não havia rejeição; simplesmente não havia chamado.

    Mais tarde surgiu um aparente paradoxo: crianças frequentemente se aproximavam de mim com uma ternura que me surpreendia. Algumas de maneira tão insistente que, confesso, já precisei me esconder de algumas delas, o que ainda acho bastante engraçado.

    Durante algum tempo eu poderia ter interpretado isso a partir daquele velho raciocínio: “talvez exista uma maternidade reprimida em algum lugar”. Hoje acho essa conclusão intelectualmente preguiçosa. Ter ternura por crianças não é o mesmo que desejar ser mãe.

    Podemos reconhecer a vulnerabilidade e a sacralidade da infância, sentir desejo de proteção, curiosidade ou afeto e, simultaneamente, saber que não desejamos assumir a responsabilidade permanente de educar outro ser humano. Talvez justamente por levar a infância tão a sério eu jamais tenha conseguido tratar a maternidade como uma etapa obrigatória e automática da vida. E há ainda um último elemento.

    Apesar de sempre ter me identificado confortavelmente como mulher, meu útero nunca ocupou um lugar particularmente importante na construção dessa identidade. Ele simplesmente estava ali. Recentemente, precisei removê-lo. E aconteceu algo que, dentro da narrativa convencional sobre o corpo feminino, talvez parecesse paradoxal: não me senti menos inteira. Senti-me mais inteira.

    Depois da cirurgia, aquela pulsão criativa intensa que eu reconhecia em mim desde criança começou a reaparecer. Não ofereço minha experiência individual como regra biológica para outras mulheres. Os resultados de uma histerectomia variam de pessoa para pessoa; revisões científicas, inclusive, não encontram uma perda inevitável da função sexual após o procedimento e mostram trajetórias bastante heterogêneas. 

    Mas, no meu caso, aquilo que ocorreu no corpo encontrou uma correspondência subjetiva poderosa. Foi então que compreendi por que aquela pergunta da masterclass havia me afetado tanto.Eu estava procurando uma resposta energética para uma pergunta que talvez tivesse começado muito antes no terreno social.

    O útero é um órgão. Não é uma sentença ontológica.

    Sua presença não torna alguém mais mulher. Sua ausência não torna alguém menos mulher. Ele pode gestar uma vida sem necessariamente ser a sede da criatividade; pode adoecer sem que a alma adoeça com ele; pode ser retirado sem que aquilo que uma pessoa reconhece como sua dimensão feminina, espiritual ou criadora seja retirado junto.

    Talvez meu processo atual não seja propriamente uma depuração, palavra que ainda sugere que alguma coisa precisa ser expulsa para que outra se torne pura. Talvez seja uma transmutação.

    Na alquimia, afinal, transformar não significa negar a matéria anterior. Significa submetê-la ao fogo suficiente para que outra configuração se torne possível.

    E talvez tenha sido essa a primeira epifania que aquela pergunta, involuntariamente, me ofereceu: o corpo muda; nós atribuímos significado à mudança. E, às vezes, quando um símbolo que acreditávamos indispensável desaparece, descobrimos que aquilo que procurávamos nele nunca esteve confinado ali.

    Talvez a segunda epifania mais desconcertante tenha sido perceber que eu estava perguntando o que havia perdido quando deveria estar perguntando o que aquela perda havia desocupado dentro de mim. Passamos a vida confundindo aquilo que carregamos com aquilo que somos. Carregamos órgãos, sobrenomes, histórias familiares, expectativas, arquétipos, feridas, papéis sociais e até sonhos que talvez tenham sido sonhados por outras pessoas antes de nós; depois os incorporamos tão profundamente que sua ausência parece anunciar uma mutilação do próprio ser. Mas talvez algumas perdas não produzam vazios: produzam espaço. E foi somente quando meu corpo deixou de carregar aquilo que durante séculos foi transformado em metáfora da completude feminina que compreendi algo quase absurdamente simples: eu nunca habitei o meu útero; era o meu útero que habitava temporariamente em mim. Minha consciência, minha capacidade de amar, criar, intuir, desejar, transformar matéria em linguagem e experiência em significado permaneceram. Talvez a verdadeira iniciação não seja acrescentar continuamente coisas à identidade, mas descobrir, uma a uma, quais delas podem desaparecer sem que desapareçamos junto. E talvez seja justamente nesse instante, quando aquilo que julgávamos indispensável deixa de existir e ainda assim permanecemos, que encontramos pela primeira vez alguma coisa próxima daquilo que somos.

    -Liorah Zahav

  • Frieda Harris, a geometria do Tarot de Thoth e uma hipótese sobre a alquimia da colaboração

    Há algum tempo, enquanto estudava o Tarot de Thoth, uma pergunta começou a me incomodar. Talvez porque certas perguntas surjam precisamente quando uma explicação se torna fácil demais.

    Nós o chamamos de Tarot de Crowley. Nas lojas, nos livros, nas conversas sobre ocultismo, o objeto permanece gravitando ao redor de Aleister Crowley. Seu sistema, suas correspondências, sua Thelema, sua cosmologia. Frieda Harris costuma surgir posteriormente, depois de uma vírgula: illustrated by Lady Frieda Harris.

    Mas o que acontece quando retiramos a artista dessa posição secundária e a colocamos novamente diante das pinturas?

    Porque Crowley não pintou nenhuma delas.

    E Frieda Harris não entrou naquele projeto desprovida de uma história espiritual, estética e intelectual própria.

    É justamente nesse intervalo – entre a teoria de um homem e a mão de uma mulher que deveria torná-la visível – que comecei a suspeitar da existência de outro Tarot.

    Antes de Crowley, havia Harris

    Marguerite Frieda Harris nasceu em 1877 e já tinha sessenta anos quando encontrou Aleister Crowley em Londres, em 1937. A pesquisa de Deja Whitehouse sobre sua trajetória, baseada extensamente em diários, correspondência e documentos arquivísticos, mostra uma mulher que já havia atravessado diferentes ambientes espirituais antes dessa colaboração. Christian Science aparece documentada em sua história; há também interesses por Teosofia, Antroposofia, mitologia e participação maçônica.

    Esse detalhe modifica a cena.

    Não temos um mestre ocultista oferecendo uma cosmologia pronta a uma ilustradora intelectualmente neutra. Temos o encontro entre duas biografias esotéricas.

    Harris viria posteriormente a tornar-se aluna mágica de Crowley e a participar de suas ordens, incluindo a O.T.O. e a A∴A∴. Em maio de 1938, sua filiação à O.T.O. foi reconhecida levando em conta graus que já possuía na Co-Masonry.

    Isso torna ainda mais inadequada uma oposição simples entre “Harris antroposófica” e “Crowley thelemita”. Ela não permaneceu do lado de fora do universo dele.

    Mas tampouco havia nascido dentro dele.

    E essa diferença é essencial.

    A conexão Steiner

    Foi aqui que minha pergunta inicial começou a ganhar uma direção inesperada.

    Por volta de 1937–38, praticamente no momento em que o projeto do Tarot começava a tomar forma, Harris estudava geometria sintética projetiva no Rudolf Steiner House, em Londres, com George Adams e Olive Whicher. Whitehouse considera sua relação com a Antroposofia e seus estudos geométricos parte relevante de seu desenvolvimento artístico.

    É importante introduzir uma distinção antes que o fascínio destrua a precisão.

    A geometria projetiva não é uma invenção de Rudolf Steiner e tampouco uma modalidade de “matemática oculta”. É uma disciplina matemática com história própria. George Adams trabalhou com geometria projetiva e, juntamente com Whicher, procurou interpretá-la e empregá-la dentro de uma investigação antroposófica sobre espaço, transformação, morfologia e natureza.

    É essa versão culturalmente situada da geometria que nos interessa.

    Em vez de um espaço constituído apenas por objetos sólidos e posições estáticas, aquele ambiente intelectual estava fascinado por polaridades: ponto e plano, centro e periferia, espaço e aquilo que Adams posteriormente chamaria de counter-space. A geometria oferecia uma linguagem para pensar relações e transformações.

    E Frieda Harris estava estudando isso justamente quando começava a construir um dos baralhos visualmente mais dinâmicos do século XX.

    Coincidência? Talvez.

    Influência? Possivelmente.

    Prova? Ainda não.

    É precisamente aí que a investigação se torna interessante.

    Crowley precisava de uma artista. Encontrou uma interlocutora.

    A história da criação do Thoth também é mais recíproca do que uma palavra como “illustrator” deixa imaginar.

    Harris e Crowley inicialmente imaginaram algo muito menos gigantesco. Em 1938, depois de estudar antigas descrições do Tarot ligadas à tradição da Golden Dawn, Harris sugeriu que trabalhassem num novo baralho. O projeto, que imaginavam concluir em aproximadamente seis meses, acabou se estendendo por cerca de cinco anos.

    E foi Harris quem pressionou pela expansão.

    Em vez de simplesmente reconstruírem um Tarot anterior, ela estimulou Crowley a colocar ali décadas de suas investigações em religião comparada, magia, filosofia e outras áreas. O resultado não seria uma atualização decorativa. Seria uma síntese.

    O método de trabalho também revela uma relação muito mais complexa.

    Crowley enviava descrições, ideias e esboços. Harris devolvia pinturas. Ele corrigia. Ela refazia.

    Mais de uma dúzia de cartas exigiu novas versões. The Magus, no caso mais extremo conhecido, foi pintado sete vezes antes de chegar à versão que satisfez Crowley.

    Esse processo me parece filosoficamente importante.

    Porque entre instrução e imagem existe uma distância.

    Uma ideia não atravessa a consciência de outra pessoa permanecendo intacta.

    Ela é interpretada.

    Selecionada.

    Comprimida.

    Transformada em cor.

    Transformada em linha.

    Transformada em espaço.

    Mesmo quando um artista tenta obedecer, precisa decidir como tornar visível aquilo que antes não possuía forma.

    É exatamente aí que a autoria começa a se tornar difícil de separar.

    A geometria escondida nas cartas

    Há uma peça de evidência particularmente sedutora, e que exige cautela justamente por ser sedutora.

    Claas Hoffmann entrevistou Olive Whicher décadas depois dos acontecimentos. Segundo sua recordação, Harris conversava com Whicher e Adams sobre o trabalho com Crowley e dizia empregar no Tarot aquilo que aprendia durante seus estudos geométricos. Whicher também se recordava de ter dado aulas particulares a Harris em seu estúdio.

    Seria tentador encerrar a investigação aqui e escrever:

    “Está provado: a Antroposofia está escondida no Thoth Tarot.”

    Mas seria intelectualmente desonesto.

    O próprio relato informa que, quando essas memórias foram registradas, Whicher já apresentava dificuldades de memória; algumas circunstâncias de sua recordação haviam se modificado entre conversas realizadas em momentos diferentes.

    Portanto, essa fonte é extraordinária como pista histórica.

    Não como sentença.

    E talvez essa diferença — entre pista e prova — seja uma das distinções mais importantes que podemos aprender a fazer quando estudamos esoterismo.

    O arquivo termina aqui

    A partir deste ponto, minha pergunta deixa de ser estritamente histórica.

    The archive ends here. Speculation begins.

    Quando observo certas pinturas de Harris para o Thoth, o que me intriga não é encontrar uma espécie de assinatura secreta de Rudolf Steiner escondida nelas.

    Isso seria simplista.

    O que me interessa é perguntar se a formação visual e espiritual de Harris modificou a maneira pela qual o universo de Crowley conseguiu tornar-se visível.

    Porque uma filosofia pode existir abstratamente enquanto permanecer em palavras.

    Quando alguém precisa dar-lhe corpo, surgem problemas que o filósofo talvez nunca tenha enfrentado.

    Onde está o centro?

    O que deve envolver o quê?

    O que é figura e o que é campo?

    O que se expande?

    O que converge?

    Onde começa e termina uma forma?

    Como se representa o infinito dentro de um retângulo de papel?

    Essas não são apenas decisões ornamentais.

    Elas constituem pensamento visual.

    Talvez seja justamente por isso que o Thoth produza aquela sensação peculiar de que suas figuras não repousam simplesmente sobre fundos. Elas parecem existir dentro de campos, fluxos, planos e movimentos maiores do que elas.

    Mas novamente: perceber isso não demonstra automaticamente uma genealogia antroposófica.

    Significa que agora sabemos onde procurar.

    E a minha hipótese de “purificação”?

    Minha pergunta original era mais radical.

    Eu conhecia a reputação de Crowley, sua relação pública com aquilo que foi frequentemente classificado como magia negra ou um caminho espiritual de sombra, e vinha pensando também sobre a célebre experiência que ele viveu com Victor Neuburg no deserto argelino em 1909.

    Em dezembro daquele ano, em Bou Saâda, os dois realizaram as operações ligadas ao décimo Aethyr e a Choronzon, dentro do processo que Crowley interpretou como uma travessia do Abismo. Alex Owen descreve o episódio como um acontecimento de enorme intensidade psicológica e ritual para ambos.

    Minha primeira intuição foi perguntar:

    teria Harris, décadas depois, produzido uma espécie de purificação da obra tardia de Crowley?

    Hoje eu reformularia essa pergunta.

    Não porque ela seja desinteressante, mas porque “purificação” sugere uma conclusão moral para a qual não possuímos evidência.

    Nada do que encontrei demonstra que Harris tenha assumido a tarefa de salvar Crowley de si mesmo, corrigir sua trajetória espiritual ou reconduzi-lo deliberadamente a algum “norte”.

    Aliás, reduzir Crowley de sua última década a uma figura simplesmente decadente também seria enganoso. O Book of Thoth é descrito na pesquisa sobre Harris como a última grande obra mágica de Crowley, e o projeto condensava décadas de seu pensamento.

    Mas há outra maneira de conservar minha intuição inicial.

    Em vez de purificação, talvez possamos falar em transmutação.

    A alquimia da colaboração

    Há uma forma de alquimia que não exige laboratório.

    Ela ocorre quando uma ideia passa por outra consciência.

    Crowley podia fornecer correspondências cabalísticas, astrológicas, mágicas e filosóficas. Podia especificar símbolos, cores e relações. Podia rejeitar uma pintura e exigir outra.

    Mas não podia ver no lugar de Frieda Harris.

    A mão que transformou a cosmologia em imagem pertencia a uma mulher que havia lido outros livros, frequentado outros círculos, praticado outras formas de espiritualidade, estudado outra concepção de espaço e formado outra relação com a arte.

    Nesse sentido, a questão não é se Harris introduziu clandestinamente Steiner dentro de Crowley.

    A pergunta mais interessante é outra:

    uma cosmologia continua sendo a mesma depois de atravessar a imaginação de outra pessoa?

    A pesquisa histórica recente sobre Harris tem precisamente o mérito de retirá-la da condição de personagem periférica. Sua contribuição ao esoterismo ocidental e a importância recíproca de sua parceria com Crowley são hoje tratadas de maneira muito mais substantiva.

    Talvez devêssemos começar a olhar para o Thoth dessa maneira.

    Não como filosofia de Crowley revestida pela estética de Harris.

    Mas como algo que nenhum dos dois teria produzido sozinho.

    Um terceiro objeto.

    Uma região situada entre duas consciências.

    E talvez seja justamente aí, entre uma coisa e outra, que alguns dos objetos mais fascinantes da história passam a existir.

    — Liorah Zahav

  • O peso da pluma

    Uma crônica sobre a história de Isidora e Thalia

    Isidora conservava sobre a escrivaninha uma antiga tigela sonora de bronze cuja procedência ninguém jamais conseguira determinar com suficiente segurança, e talvez fosse precisamente essa ausência de genealogia que a fizera conservar o objeto por tantos anos. Comprara-o ainda muito jovem numa cidade do sul que preferia recordar por um de seus nomes mortos, al-Andalus, não por preciosismo histórico, mas porque desde cedo percebera que determinadas cidades carregavam tantas sobreposições de povos, línguas, crenças e destruições que o nome contemporâneo parecia insuficiente para contê-las. A loja ficava numa rua estreita, daquelas em que os edifícios parecem ter sido construídos não apenas ao lado uns dos outros, mas uns sobre as memórias dos outros; havia ali restos de arcos que pertenciam a uma geometria anterior, pedras reaproveitadas em fachadas posteriores, uma construção religiosa cuja forma ainda guardava alguma coisa de um culto substituído por outro, e, um pouco adiante, o vestígio de uma antiga casa de câmbio. Isidora gostara imediatamente daquela vizinhança entre o lugar onde os homens procuravam o invisível e aquele onde haviam aprendido a atribuir equivalências ao ouro, às moedas e às mercadorias, porque já então começava a suspeitar que uma parte considerável da história humana pudesse ser compreendida como uma tentativa de conferir medida precisamente àquilo que não possuía medida.

    O comerciante, um homem de mãos excessivamente limpas para alguém cercado de antiguidades, advertira que a tigela provavelmente não era tibetana, embora tivesse sido fabricada para despertar exatamente essa impressão. Talvez tivesse algumas décadas apenas; talvez houvesse saído de uma oficina situada muito longe das montanhas que os europeus associavam ao silêncio dos mosteiros, e talvez as pequenas marcas que circundavam seu exterior não fossem uma escrita sagrada, mas uma ornamentação criada por alguém que compreendia suficientemente bem o desejo ocidental pelo remoto. Isidora a tomou entre as mãos e passou os dedos pelas irregularidades deixadas pelo martelo. A revelação de sua provável inautenticidade não lhe pareceu uma decepção; ao contrário, fez com que desejasse o objeto ainda mais. Alguém aquecera aquele metal. Alguém golpeara repetidamente o bronze para obrigá-lo a adquirir forma. Havia diferenças mínimas na espessura, imperfeições quase invisíveis, pequenas hesitações que uma máquina talvez tivesse eliminado e que, para ela, constituíam justamente o testemunho de que uma consciência estivera ali.

    Começou a imaginar as mãos que a haviam fabricado. Não o monge que o vendedor poderia ter inventado para multiplicar seu preço, mas uma pessoa comum, talvez cansada, talvez preocupada com alguma dívida, talvez apaixonada, talvez irritada por precisar repetir aquele mesmo movimento dezenas de vezes. Imaginou uma oficina quente, outras tigelas empilhadas, o metal mudando lentamente de comportamento sob o impacto. A narrativa era inteiramente inventada e, ainda assim, Isidora teve a impressão de que continha mais humanidade do que uma falsa certificação de autenticidade poderia conter. Foi talvez nesse instante que formulou uma das ideias que permaneceriam com ela por toda a vida: a falsificação pode mentir acerca da própria origem e, simultaneamente, revelar uma verdade sobre aquele que a produziu, sobre aquele que a vendeu e, sobretudo, sobre aquele que necessita acreditar nela.

    Sempre desconfiara da obrigação de que uma coisa fosse autêntica para possuir significado. A autenticidade lhe parecia uma qualidade importante, mas nunca uma condição absoluta da verdade. Um mito podia ser historicamente falso e psicologicamente exato; uma cópia podia sobreviver ao original e tornar-se, pela própria sobrevivência, a única forma através da qual o original continuaria existindo; um restaurador podia acrescentar a um afresco aquilo que julgava estar apenas recuperando; uma memória podia deformar um acontecimento e, nessa deformação, revelar com uma precisão extraordinária o desejo de quem lembrava. Isidora descobriria mais tarde que até os seres humanos vivem cercados por cópias de si mesmos: a pessoa que imaginam ser, aquela que os outros pensam conhecer, aquela que foram vinte anos antes e continuam defendendo, aquela que se torna possível apenas diante de alguém específico. O problema talvez nunca tivesse sido simplesmente distinguir o verdadeiro do falso, mas perguntar que necessidade havia produzido cada versão.

    Ao redor da tigela ela mantinha uma pequena constelação de objetos cuja disposição mudava ocasionalmente, embora jamais obedecesse a uma simetria completa. Havia uma pluma clara, uma pequena esmeralda que recebera do pai, fragmentos de mármore recolhidos nas proximidades de uma necrópole da cidade soterrada pelo Vesúvio, um topázio, um quartzo rosado, uma turmalina escura e um pequeno recipiente de cobre cuja superfície começara a adquirir uma pátina irregular. O cobre lhe interessava menos pelas propriedades espirituais que alguns lhe atribuíam do que pela antiga correspondência com Vênus e pela extraordinária honestidade de seu envelhecimento. Ao contrário dos materiais que parecem resistir ao contato com o mundo, o cobre o registra. O ar deixa marcas, a umidade escreve sobre ele, as mãos participam lentamente de sua transformação. Isidora pensava que certos seres humanos também possuíam essa qualidade: não atravessavam uma experiência sem permitir que alguma coisa dela se tornasse visível.

    A esmeralda pertencia a outra espécie de significado. Seu pai a colocara em suas mãos muitos anos antes, e desde então Isidora desconfiava de que determinados objetos adquiriam uma segunda matéria quando recebidos de alguém que amávamos. Continuavam sendo minerais, metais, madeira ou tecido, e nada em sua composição física se alterava, mas algo passava a existir na relação entre o objeto e aquele que o guardava. A ciência poderia descrever todos os elementos da esmeralda e ainda assim nada saberia sobre a tarde em que ela fora oferecida. Isidora não via nisso uma insuficiência da ciência; seria absurdo exigir de um instrumento que respondesse a uma pergunta para a qual não havia sido construído. Era a própria existência humana que se organizava simultaneamente em registros diferentes, e uma das grandes confusões de sua época, pensava, consistia em obrigar um deles a provar aquilo que pertencia ao outro.

    Os mármores de Pompeia lhe ensinavam o movimento contrário. Eram pequenos demais para possuir qualquer valor arqueológico e teriam parecido insignificantes a quase qualquer pessoa, mas haviam permanecido próximos de uma cidade que sobrevivera à própria destruição. Isidora gostava da ironia dessa formulação: Pompeia fora conservada precisamente pela força que a havia aniquilado. O Vesúvio destruíra vidas, casas, projetos, conversas, refeições interrompidas, desejos que ninguém saberia reconstruir; ao mesmo tempo, criara as condições pelas quais uma parcela extraordinária daquele mundo seria preservada. Desde cedo ela aprendera a desconfiar de qualquer filosofia que transformasse a destruição em benefício apenas porque algum resultado posterior pudesse ser considerado valioso. A preservação de Pompeia jamais justificaria Pompeia ter sido destruída. Essa distinção, aparentemente simples, voltaria muitos anos depois, quando alguém lhe dissesse que determinado sofrimento fora necessário para sua evolução.

    Isidora sempre preferira as assimetrias. Não porque considerasse imperfeita a simetria, mas porque suspeitava que a perfeição geométrica, quando encontrada na natureza, raramente sobrevivia a uma observação suficientemente próxima. Duas folhas podiam parecer correspondentes até que se observassem suas nervuras; dois lados de um rosto podiam sustentar uma harmonia exatamente porque não eram idênticos; um cristal podia obedecer a determinada estrutura e ainda conter inclusões que registravam o acidente de sua formação. Quando criança, imaginava que, se pudesse penetrar indefinidamente a matéria, encontraria uma sucessão quase interminável de ordens e desordens: uma simetria revelaria uma assimetria quando vista de perto, que por sua vez participaria de outra ordem quando observada numa escala diferente, até que a própria distinção entre ordem e caos talvez se tornasse uma limitação do observador.

    Essa intuição lhe parecera durante anos apenas uma fantasia. Mais tarde, ao estudar alguma física e compreender o quanto a matéria divergia da imagem compacta que os sentidos produziam dela, sentiu o mesmo prazer que experimentara ao encontrar ideias semelhantes às suas em livros muito mais antigos. Não porque a ciência confirmasse suas metáforas – aprenderia a resistir cada vez mais a essa tentação -, mas porque o real lhe parecia ainda mais estranho quando não era necessário falsificá-lo.

    A pergunta sobre a justiça também começara muito antes de Thalia.

    Isidora não recordava um momento específico em que tivesse passado a duvidar dela; era mais provável que nunca tivesse acreditado inteiramente na versão que recebera. Na infância, enquanto os adultos lhe explicavam que Deus era infinitamente justo, também descreviam punições eternas, recompensas, interdições e um adversário cuja função parecia consistir em oferecer à imaginação infantil a imagem absoluta daquilo que deveria ser temido. A contradição a inquietava antes mesmo que possuísse palavras para formulá-la. Se uma pessoa fazia o bem unicamente porque temia o inferno, perguntava-se em silêncio, onde exatamente estava a bondade? Talvez houvesse apenas prudência.

    O Deus de sua infância parecia existir fora do tempo e do espaço, como uma consciência encarregada de registrar cada pensamento e distribuí-lo posteriormente entre recompensa e castigo. Isidora jamais conseguira deixar de perceber quanto aquela divindade se parecia com os homens que a descreviam. Possuía preferências, ofendia-se, exigia fidelidade, desaprovava perguntas inconvenientes, distinguia obedientes de rebeldes e, em algumas narrativas, parecia mais preocupado em ser reconhecido do que qualquer inteligência infinita deveria estar. Havia nesse Deus algo excessivamente humano, mas não no sentido belo de possuir compaixão ou vulnerabilidade; era humano sobretudo naquilo que lembrava poder.

    O Diabo não lhe parecia mais convincente. Desde muito cedo, Isidora suspeitava de que a divisão absoluta entre ambos talvez dissesse menos sobre a estrutura do cosmos do que sobre uma operação psíquica elementar: aquilo que o homem deseja reconhecer em si é elevado, aquilo que não suporta reconhecer é lançado para baixo. A luz encontra morada no céu, a crueldade é enviada ao inferno, e entre ambas permanece a criatura humana afirmando que uma dessas regiões não lhe pertence. Mais tarde Jung lhe ofereceria outra linguagem para aquilo que ela intuía de maneira rudimentar, mas a percepção original permaneceria: projetar a sombra para fora não a elimina; apenas nos torna menos capazes de reconhecê-la quando ela retorna usando nosso próprio rosto.

    Antes de Nietzsche, porém, existira Sofia.

    Isidora a conhecera por meio de um livro quando ainda estava na adolescência, e durante algum tempo achara delicioso o fato de que a filosofia pudesse começar com uma personagem cujo próprio nome significava sabedoria. Muito mais tarde encontraria Sofia novamente em tradições gnósticas, em personificações esotéricas da sabedoria e em sistemas nos quais o conhecimento não era apenas um acúmulo de respostas, mas uma espécie de queda e retorno. Na primeira vez, contudo, ela era apenas uma menina dentro de um livro conduzindo outra menina por perguntas que pareciam tornar o mundo mais vasto.

    Nietzsche apareceu depois, numa edição que pertencera a seu pai e trazia consigo algo dos anos oitenta: papel amarelado, marcas antigas, talvez uma anotação que Isidora jamais conseguiu identificar com segurança. A primeira leitura foi um fracasso fértil. Ela compreendeu pouco e, justamente por isso, descobriu que existiam pensamentos cuja complexidade não podia ser reduzida sem perda. Havia passado parte da adolescência em ambientes nos quais compreender significava frequentemente conseguir repetir uma resposta correta. Nietzsche lhe apresentou a possibilidade de que compreender também pudesse significar permanecer tempo suficiente diante de uma contradição para permitir que ela destruísse uma pergunta mal formulada.

    Anos depois, numa conversa de jovens leitores, ouviu pela primeira vez a história do cavalo de Turim. Alguém contou que Nietzsche, ao ver um cocheiro açoitar brutalmente um cavalo, aproximara-se do animal, abraçara-lhe o pescoço e pouco depois mergulhara no colapso do qual jamais retornaria plenamente. Isidora descobriria posteriormente que a cena sobrevivera sobretudo como narrativa e que seus detalhes não possuíam a segurança documental que a imaginação coletiva lhes conferira. Isso apenas a tornou mais interessante. O homem que passara décadas escavando as genealogias da moral acabara transformado numa parábola sobre compaixão. Talvez a história fosse verdadeira, talvez não; em ambos os casos, dizia alguma coisa sobre o que os homens desejaram encontrar no fim de Nietzsche.

    Isidora nunca viu naquele episódio uma conversão sentimental. O que a perturbava era outra possibilidade: talvez uma consciência que tenha olhado longamente para a fabricação humana do bem e do mal não se torne necessariamente incapaz de compaixão; talvez se torne, em certas circunstâncias, ainda menos protegida diante do sofrimento nu, justamente porque já não dispõe das explicações confortáveis que costumam revesti-lo.

    Foi com Sofia, Nietzsche, Platão, algumas leituras da Cabala, incursões por Jung, Lacan, Deleuze, tradições antroposóficas, teosóficas, mitologias japonesas, textos herméticos e a curiosidade um tanto indisciplinada de quem nunca acreditara que uma única disciplina pudesse esgotar qualquer pergunta importante que Isidora chegou, muitos anos depois, a Mediolanum.

    A cidade moderna possuía outro nome, evidentemente, mas Isidora preferia ocasionalmente devolvê-la aos romanos. Hospedava-se num apartamento em Brera, numa construção de pé-direito alto cujas paredes pareciam guardar melhor o inverno do que o calor. Gostava das portas antigas, dos pisos perfeitamente nivelados, da lareira ornamentada elegantemente, da maneira como a luz do fim da tarde atravessava as janelas e modificava a cor do interior sem que nenhum objeto realmente mudasse. Na primeira noite em que viu Thalia, o bairro estava cheio de jovens. Havia vozes, cigarros, taças, casacos escuros, bicicletas encostadas junto às paredes e uma espécie de movimento contínuo que fazia as pessoas parecerem parte da própria rua.

    Thalia estava numa esquina, ligeiramente afastada, num ponto em que a iluminação pública não alcançava inteiramente o rosto.

    Isidora recordaria essa imagem centenas de vezes e, com o tempo, passou a desconfiar dela. A memória possui uma tendência quase sacerdotal para transformar circunstâncias banais em símbolos depois que conhece aquilo que aconteceu. Uma mulher na penumbra torna-se prenúncio; uma frase casual, profecia; uma hesitação que não significava nada adquire importância retrospectiva. Isidora recusava-se a conceder àquela primeira sombra o privilégio de ter previsto o futuro, embora reconhecesse que a imagem permanecera.

    Chamou-a posteriormente de Thalia porque o nome evocava florescimento, e talvez nenhuma palavra descrevesse melhor o equívoco original. Isidora acreditara ver nela uma possibilidade ainda não realizada.

    A beleza era evidente, mas não foi o que a aproximou. Havia nos olhos da jovem algo que Isidora interpretou como solidão. Não uma solidão romântica, bela sob a luz de uma cidade estrangeira, mas aquela espécie de vigilância que algumas pessoas desenvolvem quando aprenderam a observar o ambiente antes de relaxar dentro dele. Thalia falara fragmentariamente sobre a mãe, sobre uma espécie de distância antiga dentro da própria história, sobre lugares em que estivera cercada de gente sem necessariamente ter se sentido acompanhada. Isidora escutou aquilo com a atenção que sempre dedicara às genealogias afetivas.

    Mais tarde perguntaria se escutara Thalia ou se escutara demasiadamente aquilo que a história dela havia despertado em si.

    Essa distinção tornou-se central.

    Os olhos, pensava, nunca foram simplesmente janelas da alma. A metáfora era bela demais e, por isso mesmo, perigosa. Uma janela pressupõe que exista atrás dela um aposento que podemos observar. O olhar humano é mais instável. Revela e dissimula; responde ao observador; pode carregar verdade e defesa simultaneamente. Às vezes não enxergamos aquilo que há nos olhos do outro, mas aquilo que nossa própria história se tornou particularmente hábil em reconhecer.

    Isidora não apenas se apaixonou. Acreditou.

    E havia uma diferença importante entre as duas coisas. A paixão pode sobreviver sabendo que está intoxicada; a confiança, ao contrário, costuma construir razões. Ela arquiteta uma teoria do outro. Recolhe indícios, interpreta gestos, organiza contradições e, se a teoria se torna afetivamente preciosa, pode utilizar a própria inteligência para protegê-la.

    Talvez esse tivesse sido o erro mais sofisticado de Isidora: não ignorar sinais, mas tornar-se hábil demais em interpretá-los.

    Sua curiosidade pela psicologia começara muito cedo. Uma educação rígida lhe ensinara, ainda pequena, que os estados internos dos adultos possuíam consequências e que observar cuidadosamente uma mudança de tom, uma demora numa resposta ou um silêncio podia ser uma forma de orientação. Aquilo que começara como sensibilidade transformou-se depois em estudo. Jung, Lacan e tantos outros deram vocabulário a mecanismos que ela antes apenas percebia. Com Deleuze aprendera a desconfiar de certas teorias que reduziam o desejo à falta; com Jung, aprendera a procurar aquilo que a consciência excluía e o contínuo trabalho da sombra; com Lacan, compreendeu o quanto a relação com o outro também se entrelaça àquilo que esperamos encontrar no olhar dele.

    O resultado dessa formação, contudo, possuía uma armadilha: Isidora conseguia produzir explicações para quase tudo. Uma evasão podia ser defesa, uma contradição podia revelar medo, uma incapacidade de reciprocidade podia ter origem numa história de abandono, uma atitude moralmente pobre podia ser compreendida como repetição de uma ferida. Tudo isso podia ser verdadeiro. A falha estava em supor que a verdade psicológica de uma causa alterava automaticamente o significado ético de uma consequência. Demorou a aprender que compreender não é absolver. E, mais ainda, que algumas vezes a compreensão excessiva se converte numa forma refinada de evitar a evidência.

    A amizade que ofereceu a Thalia, entretanto, jamais lhe pareceu um erro. Essa parte de sua história ela se recusaria a adulterar em nome de uma maturidade posterior. Havia sido sincera. Isidora não sabia amar contabilizando e, nas poucas vezes em que amara verdadeiramente, desejara que o outro expandisse a própria existência. Queria que encontrasse possibilidades, que se tornasse menos limitado por medos herdados, que pudesse reconhecer a própria inteligência e construir uma vida que não dependesse continuamente de mecanismos de defesa. A alegria da pessoa amada produzia nela uma expansão quase física, como se o florescimento do outro ampliasse também o território do mundo.

    Somente muito mais tarde Isidora perguntaria o que havia, além de amor, dentro dessa capacidade. E constataria que na verdade o amor nunca esteve presente, até mesmo com pessoas anteriores. Talvez ela nunca tenha amado de verdade. Porque nenhuma virtude atravessa a psique em estado alquímico puro.

    Quando a existência deixou de exigir que Isidora oferecesse e passou a exigir que recebesse, algumas diferenças tornaram-se impossíveis de sublimar. Houve um período em que o corpo a obrigou a recordar aquilo que toda abstração espiritual ocasionalmente tenta esquecer: somos também carne, tecido, vulnerabilidade, medo e uma organização provisória da matéria que pode falhar sem consultar nossa filosofia. Durante esse tempo, Isidora não esperava ser salva. Esperava algo muito menor e, justame2nte por isso, mais revelador: a passagem do afeto da linguagem ao gesto.

    Foi então que percebeu que algumas pessoas sabem acompanhar aquilo que em nós é luminoso, interessante, produtivo ou belo, mas encontram grande dificuldade diante daquilo que simplesmente exige presença. Não transformou essa percepção em sentença imediata. A vida alheia possuía regiões que ela jamais conheceria completamente. O que se tornou difícil ignorar foi a repetição de uma mesma estrutura: quando determinada situação exigia responsabilidade, permanência ou uma definição menos conveniente, surgia uma forma de desaparecimento. Promessas moviam-se para uma data posterior, compromissos tornavam-se progressivamente ambíguos e coisas cuja natureza inicialmente parecera indiscutível começavam a exigir explicações que nunca haviam sido necessárias quando Isidora as oferecera.

    Foi a inversão que finalmente lhe chamou a atenção. Em algum ponto, percebeu que estava sendo conduzida a justificar por que esperava a preservação de algo que jamais deveria ter sido transformado em objeto de disputa. A partir daí, sua pergunta deixou de ser apenas afetiva e tornou-se novamente filosófica.

    Por que necessitava tanto que Thalia compreendesse? A pergunta foi mais perturbadora do que qualquer acusação que poderia dirigir à outra mulher.

    Isidora queria que determinados fatos fossem reconhecidos, naturalmente. Mas desejava também uma forma de equivalência interior: que a consciência de Thalia chegasse ao mesmo lugar moral a que a sua havia chegado. Queria que ela compreendesse o significado do próprio gesto e, por meio desse reconhecimento, reorganizasse retrospectivamente o acontecimento. Foi quando descobriu que, tendo retirado Deus de sua antiga arquitetura moral, deixara a cadeira do juiz desocupada. Thalia deveria ocupá-la.

    Aquele que causara a ferida deveria transformar-se também no intérprete perfeito dela. Deveria reconhecer, nomear, compreender e finalmente produzir a sentença que devolveria ao acontecimento alguma ordem.

    Isidora percebeu então uma crueldade involuntária que às vezes praticamos contra nós mesmos: exigir daquele cuja consciência permitiu determinada ação exatamente a lucidez moral que talvez lhe faltasse para não praticá-la.

    A responsabilidade não dependia dessa lucidez posterior. Mas sua paz, até então, ainda dependia.

    Foi nessa época que Dworkin lhe retornou à memória, estranhamente, ao lado de Platão. Ela havia estudado Direito muitos anos antes e sempre percebera uma diferença fascinante entre a justiça como ideal filosófico e a justiça como trabalho humano. Platão podia imaginar uma harmonia adequada entre as partes da alma e da cidade; o Direito precisava decidir o que fazer numa terça-feira, diante de pessoas concretas que discordavam radicalmente sobre o que havia acontecido. Dworkin, com sua imagem do romance em cadeia, parecera-lhe especialmente elegante: cada intérprete recebe capítulos que não escreveu e precisa continuar a história de uma forma que conserve alguma integridade com aquilo que veio antes. Muitos anos depois, Isidora percebeu o quanto aquela metáfora extrapolava o Direito.

    Ninguém escreve todas as primeiras páginas da própria existência. Recebemos uma língua, uma família, um corpo, uma época, histórias anteriores, crenças, feridas, privilégios, ausências. Entramos num manuscrito já iniciado. Isso não significa que qualquer página seguinte seja inevitável. A responsabilidade começa precisamente onde o texto recebido encontra a mão que continuará escrevendo.

    Talvez a justiça humana tivesse surgido, pensou Isidora, justamente porque nenhuma pessoa pode depender da consciência privada de outra para existir em segurança. Construímos leis, provas, testemunhos, contratos e instituições porque a conversão moral não pode ser condição prévia para toda reparação. Um tribunal não precisa penetrar a alma. Precisa, em seus melhores momentos, estabelecer o que ocorreu e qual consequência humana pode ser produzida a partir daí. A justiça metafísica era outra coisa.

    Se houvesse uma inteligência encarregada de equilibrar cada sofrimento, seria necessário explicar uma quantidade quase obscena de desequilíbrio. Isidora nunca conseguira aceitar respostas fáceis para crianças que morriam, povos aniquilados, existências devastadas por acontecimentos que nenhum aprendizado posterior poderia tornar necessários. A ideia de que uma alma tivesse escolhido previamente determinado sofrimento para evoluir lhe parecia, em alguns contextos, apenas uma forma espiritualmente decorada de crueldade. Transformava vítimas em autoras ocultas da própria catástrofe e transformava quem ferira em instrumento involuntário de uma pedagogia cósmica.

    Talvez o universo não fosse justo. Essa hipótese já não lhe parecia niilista.Talvez justiça fosse uma invenção humana precisamente porque o universo não a fornecia pronta. Talvez a dignidade estivesse nisso.

    Foi nessa região de pensamento que Isidora abandonou parte de sua antiga linguagem sobre energia sem abandonar inteiramente aquilo que tentava dizer através dela. Não precisava acreditar que pensamentos emitiam uma frequência magnética capaz de convocar determinadas pessoas. Havia uma cadeia mais complexa e muito mais plausível: aquilo que pensamos altera o que percebemos; aquilo que percebemos participa de nossas escolhas; as escolhas repetidas produzem hábitos; hábitos constroem ambientes; os ambientes tornam algumas relações mais prováveis que outras; e as relações devolvem novas informações àquilo que pensamos sobre nós mesmos. O chamado campo de uma pessoa podia ser compreendido, então, como uma ecologia psíquica. Nesse sentido, Thalia pertencia também à região de responsabilidade de Isidora.

    Não os atos de Thalia.

    Esses pertenciam a Thalia.

    Mas a arquitetura através da qual Isidora a deixara permanecer.

    Foi algum tempo depois dessa percepção que ela teve o sonho da cidade de tijolos.

    Dormia numa região distante dos velhos mapas europeus, em terras de montanhas antigas, rios ferruginosos e árvores que sua imaginação infantil sempre tratara como máquinas vivas. Quando criança, Isidora subia nelas com uma facilidade que preocupava os adultos e permanecia durante horas entre galhos altos, imaginando que as copas eram naves estacionadas e que as árvores talvez observassem os homens numa escala de tempo diferente. No sonho, entretanto, não havia nenhuma delas. Havia canais, muros de barro, plataformas escalonadas, poeira clara e um céu tão amplo que Isidora supôs estar numa Suméria que jamais existira fora da combinação entre suas leituras e sua imaginação. Os anunnaki, por fim, resolveram não retornar. À margem de um canal, um homem derramava água continuamente sobre uma planta.

    A princípio ela crescia. Depois o solo começou a desfazer-se ao redor das raízes. Isidora perguntou por que ele continuava. O homem respondeu que aquilo que possuía para oferecer era água. Mais adiante, uma mulher cortava os ramos de uma árvore. Alguns estavam vivos. Isidora perguntou por que removia aquilo que ainda podia crescer.

    A mulher respondeu que viver e servir à vida não eram sempre a mesma coisa.

    No sonho, Isidora soube que o homem se chamava Chesed. Não porque ele pronunciasse o nome, mas porque os sonhos às vezes nos oferecem conhecimento sem intermediário. A mulher carregava outra qualidade. Seu nome lhe chegou como uma sensação de força, limite e julgamento: Geburah.

    Ao despertar, a claridade ainda não havia alcançado completamente o quarto. Sobre a mesa de cabeceira de cerejeira repousava um livro relacionado a Jung, arquétipos e tarô, e Isidora permaneceu olhando durante algum tempo para os veios avermelhados da madeira. Lembrou-se das cerejeiras japonesas e da maneira como sua beleza fora tantas vezes associada à transitoriedade. Aquela árvore, transformada em móvel, já não floresceria; ainda assim conservava na matéria a memória estrutural de ter sido árvore.

    Foi então que Tiferet lhe ocorreu de outra maneira.

    Durante muito tempo compreendera intelectualmente que a beleza central não consistia na vitória de Chesed sobre Geburah nem de Geburah sobre Chesed, mas na proporção capaz de integrar ambos. No sonho essa ideia deixara de ser abstrata. A água que nutre pode afogar. A lâmina que destrói pode salvar uma árvore. A mesma força muda de significado de acordo com sua medida. A beleza, portanto, não estava necessariamente na suavidade. Estava na proporção.

    Isidora nunca acreditara que amor verdadeiro significasse ausência de limites; essa interpretação lhe parecia infantil. O que passou a compreender de maneira mais profunda era que o limite não se encontra fora do amor como uma violência aplicada posteriormente. Em certas circunstâncias, é uma de suas formas internas. Uma casa sem portas não é infinitamente hospitaleira. Talvez seja apenas incapaz de distinguir chegada de invasão.

    O erro tampouco estava em ter achado que havia amado demais. Essa formulação produzia nela certo incômodo porque transformava falta de discernimento em excesso de virtude. O amor não precisava ser diminuído. Precisava tornar-se mais consciente da arquitetura através da qual se oferecia. Jung apareceu então no lugar menos confortável: Seria demasiado simples transformar Thalia na sombra. Uma narrativa em que uma pessoa é luz e a outra escuridão produz alívio moral, mas pouca transformação. Os fatos podiam continuar sendo assimétricos; responsabilidades não precisavam ser iguais para que Isidora investigasse aquilo que sua própria história havia colocado na amizade. Perguntou-se então o que existira dentro de sua generosidade além da generosidade.

    Encontrou amor verdadeiro, e não permitiria que nenhuma análise posterior o tornasse falso apenas porque fora oferecido ao lugar errado. Encontrou lealdade, compaixão, curiosidade genuína pela interioridade de outra pessoa. Mas encontrou também algo mais delicado: uma confiança quase vaidosa em sua capacidade de compreender. Havia acreditado, talvez, que enxergar suficientemente fundo as origens de um comportamento lhe permitiria auxiliar a pessoa a atravessá-lo. Essa esperança carregava uma forma discreta de poder. Não era maldade.

    Era sombra. A sombra de uma qualidade não precisa ser seu oposto. Às vezes é apenas aquilo que a qualidade desconhece sobre si mesma.

    Foi assim que o karma começou finalmente a mudar de significado.

    Durante algum tempo, Isidora afirmara acreditar que toda energia retornava à origem. Não desejava sofrimento a ninguém, dizia. Apenas confiava numa espécie de neutralidade cósmica em que cada escolha encontraria, em algum ponto, uma consequência correspondente. Nietzsche talvez tivesse reconhecido nessa formulação algo que ela própria demorou a admitir: uma necessidade de compensação vestida de metafísica.

    O problema não estava em desejar vingança. Isidora genuinamente não precisava e não conseguia imaginar Thalia sofrendo. Era mais sutil. Queria que o universo demonstrasse que havia compreendido. Queria correspondência.

    E se sua serenidade dependesse da futura educação moral da outra mulher, ela permaneceria ligada a ela de uma maneira tão eficaz quanto se ainda esperasse que a balança ficasse equilibrada. O ressentimento, compreendeu, é uma forma negativa de fidelidade. Ainda organizamos uma parcela da própria existência ao redor daquele de quem afirmamos querer libertar-nos.

    Isidora começou então a pensar o karma menos como punição e mais como formação. Uma ação exterior não modifica apenas o mundo sobre o qual incide; modifica também, por repetição, a pessoa para quem aquele ato se tornou possível. Mentir uma vez não determina uma identidade. Mentir repetidamente cria atalhos. O que era exceção transforma-se em mecanismo; o mecanismo torna-se hábito; o hábito reorganiza a percepção da realidade.

    Talvez alguém pudesse agir durante décadas de maneira instrumental e ainda assim prosperar externamente. Não havia lei observável que obrigasse a vida a produzir uma cena de compensação. O retorno talvez fosse mais íntimo: quem transforma todas as relações em instrumentos pode tornar-se extraordinariamente competente em obter coisas e progressivamente incapaz de reconhecer aquilo que não pode ser obtido. Quem utiliza confiança como recurso pode terminar vivendo num mundo em que toda confiança parece estratégia. Esse destino não exige nenhum deus. É produzido pela repetição. Mas a mesma lei precisava incluir Isidora.

    Se ela transformasse compreensão em tolerância ilimitada, também fabricaria um hábito. Se entregasse continuamente a outro o poder de confirmar a realidade de sua própria experiência, construiria um modo de existência dependente de tribunais externos. A neutralidade do karma, se a palavra ainda tivesse valor, residia precisamente em não escolher lado. Cada repetição participa da construção daquele que repete.

    Foi então que o mensageiro antigo, aquele que gregos chamariam Hermes e egípcios aproximariam de Thoth, regressou aos pensamentos de Isidora. Durante anos ela se fascinara pela frase que relacionava o alto e o baixo e, como tantos antes dela, sentira a tentação de transformá-la numa chave universal. Agora a compreendia com mais reserva. Correspondência não precisava significar identidade. Uma árvore não era uma alma; um metal não era uma experiência; uma operação alquímica não era terapia. Contudo, padrões podiam atravessar linguagens sem que uma fosse prova literal da outra. A alquimia lhe oferecia justamente uma disciplina contra a espiritualidade preguiçosa. O chumbo não se tornava ouro porque alguém declarasse que tudo era luz. Era submetido a operações.

    Por isso a frase “tudo precisava acontecer para que você aprendesse” começou a lhe parecer não apenas intelectualmente pobre, mas moralmente perigosa. Se o acontecimento era necessário, a escolha de quem o produziu diminuía. A crueldade transformava-se retrospectivamente em serviço. O ofensor tornava-se funcionário involuntário da evolução da pessoa ferida. Isidora recusou essa teologia. Thalia poderia ter escolhido a ética. Era importante que pudesse. A contingência preservava a responsabilidade.

    Aquilo que acontecera não precisava possuir uma finalidade anterior para adquirir uma utilização posterior. Essa foi uma das ideias que mais profundamente modificaram Isidora. A experiência não precisava ter sido enviada para transformar-se em conhecimento. Um acidente não precisa ser planejado para produzir significado. Uma ferida pode ser transmutada sem ser santificada.

    O sentido pode nascer depois. Esse pensamento a conduziu finalmente de volta à matéria.

    Percebeu que, em alguns momentos, utilizara sistemas simbólicos precisamente para evitar a simplicidade de certas realidades. Interpretara onde deveria apenas discernir; analisara onde deveria estabelecer uma consequência; procurara motivações quando os próprios acontecimentos já haviam produzido informação suficiente. Foi então que Malkuth lhe pareceu extraordinariamente belo.

    Quando criança, subira nas árvores para afastar-se do chão. Agora compreendia que toda árvore, inclusive a cabalística, precisava terminar nele. O Reino não era uma forma inferior do espírito. Era sua prova.

    Uma ideia sobre limites que nunca chegasse à matéria não constituía um limite. Uma filosofia sobre responsabilidade que desaparecesse diante da primeira situação concreta talvez fosse apenas ornamentação intelectual. Existiam perguntas para Jung e perguntas para o Direito; perguntas para Hermes e outras cuja resposta dependia de fatos, prazos, fronteiras e consequências. Confundir os planos não os tornava mais profundos.

    Pouco depois, durante uma meditação, Isidora fez soar a velha tigela de bronze. O primeiro som era denso e claramente metálico; depois começou a perder contorno até permanecer apenas como uma presença difícil de localizar. Ela escutou até não conseguir determinar o segundo exato em que o som deixou de existir. Pensou que certas relações que na verdade não foram relações  talvez terminassem assim.

    Há um acontecimento reconhecível, depois ecos, hábitos, discussões imaginárias, perguntas que continuam respondendo a alguém que já não está presente. O vínculo termina antes de deixar de vibrar. Quando abriu os olhos, uma corrente de ar deslocara a pluma. Ela caíra sobre uma das cartas do baralho de Thoth que permanecia no chão. Isidora não se moveu imediatamente. Também não perguntou se era um sinal.

    Esse reflexo ainda existia nela, mas agora convivia com outra possibilidade. A pluma poderia simplesmente ter caído. A carta poderia estar simplesmente naquele lugar. E ainda assim a combinação poderia produzir significado.

    Talvez uma coincidência não precise ser enviada para tornar-se significativa.

    Esse pensamento lhe pareceu mais sofisticado do que escolher entre superstição e desprezo. A pluma trouxe de volta Maat.

    Isidora pensou na antiga pesagem do coração e percebeu algo que durante anos lhe escapara: a cena não era verdadeiramente sobre o castigo do inimigo. Era sobre aquilo que cada consciência carregava até o momento da pesagem. Ela passara tempo demais perguntando pelo peso futuro de Thalia. O que determinadas escolhas fariam com ela? Que espécie de pessoa produziria? Que consequências encontraria? A pergunta não era ilegítima. Mas ainda era um fio.

    Compreendeu que libertar-se não exigia responder a essas questões; exigia aceitar que talvez jamais soubesse.

    Ressentimento pesa porque exige manutenção. Orgulho pesa quando transforma a ferida numa identidade que precisa continuamente de alimento. A necessidade de reconhecimento pesa quando entrega à consciência alheia a autoridade de determinar se aquilo que sentimos foi real. Mas também pesa aquilo que deixamos sem proteção dentro de nós enquanto permanecemos excessivamente ocupados interpretando o outro.

    Naqueles mesmos dias, circulavam novamente referências ao chamado portal do oitavo dia do oitavo mês, associações contemporâneas entre o Sol, Leão e Sirius que Isidora conhecia suficientemente para não confundi-las com astronomia. Ainda assim, não sentia necessidade de ridicularizar a linguagem. Durante milênios, os homens haviam olhado para o céu e construído relações entre movimentos celestes e movimentos interiores. Sirius marcara ciclos para povos do Nilo. O Sol recebera nomes, rostos, templos. Rá, Amon-Rá, Sekhmet haviam permitido pensar criação, poder, destruição, doença, cura e força por meio de imagens.

    Talvez não houvesse portal algum no espaço. Mas símbolos também abrem portas.A diferença estava em saber em que lugar elas se abriam.

    Sekhmet lhe ocorreu então não como uma deusa enviada contra alguém, mas como uma figura para pensar força. O mesmo calor que sustenta pode consumir. A mesma ferocidade que destrói pode proteger. Outra vez Isidora encontrava a mesma estrutura do sonho: água, lâmina, Sol. Nenhuma força possuía valor independentemente de sua relação com medida, direção e consciência. Tiferet retornava sem ser chamado pelo nome.

    Foi nesse momento que amor fati perdeu sua aparência de submissão.

    Isidora jamais aceitaria a interpretação segundo a qual deveria agradecer pelo sofrimento para demonstrar evolução. Amar o destino não podia significar declarar boa a crueldade ou necessária a traição. Isso seria apenas violência retrospectiva contra a própria percepção. O destino começava onde a reversibilidade terminava. Aquilo acontecera. Essa era a parte sobre a qual já não possuía poder. Mas o acontecimento não continha, por si só, a forma final daquilo que ela se tornaria. A operação ainda estava aberta. Era isso que Isidora podia amar: não o golpe, mas a liberdade que permanecia depois dele.

    A traição tampouco elevava automaticamente ninguém. O sofrimento não é uma iniciação apenas porque dói. Pode produzir lucidez ou amargura, ampliação ou estreitamento, repetição ou transformação. A matéria bruta não escolhe o resultado. O alquimista é que precisa trabalhar. Foi assim que Thalia gradualmente deixou de ocupar a posição central da história.

    Talvez nunca tivesse existido entre ambas aquilo que Isidora, em determinado momento, chamara de relação. Talvez tivessem existido encontros, desejos, projeções, momentos de afeto verdadeiro, tentativas de construir continuidade sobre estruturas que jamais adquiriram a mesma realidade para ambas. O fato de uma experiência possuir profundidade para uma pessoa não obriga a outra a tê-la vivido na mesma dimensão.

    Isso também fazia parte do luto: reconhecer que duas pessoas podem ter compartilhado acontecimentos sem ter compartilhado a mesma história.

    Thalia ainda era jovem. Isidora não transformava essa juventude em indulgência, tampouco em condenação. Significava apenas que inúmeras escolhas ainda participariam da construção de seu caráter. Talvez encontrasse ambientes em que beleza e encanto não substituíssem consistência. Talvez conhecesse pessoas diante das quais estratégias antigas não funcionariam. Talvez aprendesse. Talvez não.

    A verdadeira separação ocorreu quando essas hipóteses deixaram de ser necessárias.

    Não no dia em que cessaram as palavras, porque palavras podem terminar muito antes ou muito depois de uma relação. Não quando determinadas pendências encontraram finalmente o território da matéria a que pertenciam. Nem mesmo quando Isidora compreendeu intelectualmente aquilo que vivera.

    A separação aconteceu quando o futuro moral de Thalia deixou de funcionar como apêndice da paz de Isidora.

    Naquela noite, ela guardou a pluma numa pequena caixa de prata que atravessara gerações de sua família. A peça pertencera a uma mulher que, no século XIX, deixara as terras do baixo Reno e atravessara o oceano em direção ao sul. Isidora sabia pouco sobre ela. Não conhecia seus pensamentos, não sabia aquilo que deixara para trás, quais medos carregara no navio ou que ideia possuía do lugar para onde ia. Restara a caixa. Às vezes uma existência inteira sobrevive numa quantidade ridiculamente pequena de matéria.

    Isidora colocou a pluma dentro dela, ao lado de alguns objetos familiares, e fechou a tampa. A tigela permaneceu vazia sobre a escrivaninha.

    Por alguns dias, pensou que o vazio significasse ter superado o julgamento. Depois abandonou essa interpretação também. Discernir era necessário. A recusa em julgar qualquer ato podia ser apenas outra forma de abandonar a própria capacidade moral.

    Não era preciso transformar todas as diferenças em equivalência. Uma pessoa podia violar uma confiança e outra apenas ter demorado a compreender que ela fora violada. Essas duas coisas não possuíam o mesmo peso. A balança de Maat jamais lhe parecera tão importante precisamente porque uma balança não existe para fingir simetria. Existe para reconhecer diferença de peso.

    Isidora começou então a formular uma concepção de karma que não necessitava nem de vingança nem de certeza metafísica. Talvez houvesse muito mais no universo do que seus sentidos e sua razão conseguiam captar; seria arrogante concluir que aquilo que não podia provar era necessariamente impossível. Mas seria igualmente arrogante transformar sua intuição em lei universal apenas porque lhe oferecia conforto.

    Podia permanecer entre as duas coisas, talvez houvesse mistério, talvez houvesse apenas causalidade, formação e consequência. Em ambos os casos, uma verdade lhe parecia suficientemente forte: cada escolha participava da arquitetura daquele que escolhia.

    Thalia construiria a sua.

    Isidora, a própria.

    A diferença era que Isidora já não precisava observar a construção da outra para continuar a sua.

    Antes de dormir, escreveu algumas linhas num caderno. Não as chamou de conclusão. Conclusões a incomodavam porque davam aos pensamentos uma estabilidade que raramente possuíam. Escreveu apenas que talvez justiça não fosse uma propriedade secreta do universo, mas uma tarefa humana diante de um universo cuja ordem moral permanecia desconhecida; que um acontecimento não precisava possuir intenção para adquirir significado; que compreender a causa de uma ação não eliminava sua responsabilidade; que a sombra não anulava a luz, apenas impedia que ela se confundisse com pureza; e que nenhuma transformação digna desse nome exigia que chamássemos de bênção aquilo que havia sido destrutivo.

    Depois olhou para a tigela de bronze comprada em al-Andalus, aquela provável imitação de uma tradição que talvez jamais tivesse tocado.

    Sorriu diante da contradição. Um objeto possivelmente falso lhe ensinara, durante anos, alguma coisa verdadeira.

    A pluma que não pesava quase nada havia se tornado uma medida.

    Uma cidade destruída lhe ensinara que preservação não justifica catástrofe.

    Uma árvore imaginada como nave lhe ensinara que subir não é sempre transcender e que algumas vezes a sabedoria consiste em retornar ao chão.

    Uma mulher que Isidora acreditara poder ajudar a florescer acabara obrigando-a a perguntar o que, nela própria, precisava ser podado.

    E nenhuma dessas correspondências provava que o universo estivesse escrevendo para ela.

    Talvez esse fosse finalmente o ponto.

    O mistério não diminuía quando Isidora deixava de exigir que tudo fosse mensagem. Pelo contrário, tornava-se maior, porque o universo podia permanecer silencioso e, ainda assim, a consciência humana conservar a extraordinária capacidade de recolher fragmentos, aproximá-los, submetê-los ao fogo do pensamento e produzir uma forma que antes não existia.

    Foi então que compreendeu por que durante tantos anos se sentira atraída pela antiga imagem de Ísis recolhendo os pedaços dispersos.Não se tratava de reconstruir aquilo que havia sido exatamente como antes. Aquilo seria impossível.

    A verdadeira arte estava em saber quais fragmentos ainda pertenciam à obra, quais deveriam permanecer enterrados e quais, depois de atravessarem suficiente consciência, poderiam adquirir uma configuração que nenhum deles possuíra antes da ruptura.

    Isidora apagou a luz. Sobre a escrivaninha, o bronze permaneceu imóvel. Na caixa de prata, a pluma também. Nenhum sinal apareceu. Nenhuma justiça desceu do céu.

    E, pela primeira vez, a ausência não lhe pareceu abandono, mas espaço.

    Por Liorah Zahav

  • Confluências no Portal Solar

    A primeira coisa que pensei hoje, quando deixei meu Moleskine de lado e olhei para um .txt em branco, foi: talvez eu nunca me acostume – e talvez nunca supere o pequeno delírio que sinto – ao olhar para um laptop e escrever.

    Como uma millennial que escreve desde criança, talvez eu nunca deixe de me perguntar o quão transcendental e enigmático é o mecanismo pelo qual esse aglomerado de minerais processados, metais, eletricidade e códigos me permite fazer aparecer letras diante dos meus olhos. A máquina de escrever, nesse sentido, talvez seja mais honesta, ou ao menos mais teatral: oferece a falsa impressão de que o pensamento adquiriu matéria porque produz ruído, impacto, tinta, papel. Há alguma coisa reconfortante na violência mínima de uma tecla atingindo uma superfície.

    Mas o impulso de trazer minha escrita para cá não nasceu somente da confluência simbólica das energias deste portal, tão próximo de um eclipse solar, para espraiar nesta emulação mais uma das minhas pulsões de vida e os devaneios das mais variadas naturezas. Na verdade, ele nasceu de um conjunto de acontecimentos que constitui o assoalho deste blog.

    Ultimamente, considero-me emblematicamente diante de uma Ísis sem véu.

    O mundo anda um tanto entediante e raso. Ainda não descobri se foram as pessoas que fizeram isso com o mundo ou se foi o mundo que fez isso com as pessoas. Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?

    O inconsciente coletivo parece transbordar certa iconografia apocalíptica, e eu ando particularmente reflexiva, oscilando entre um apego ansioso analógico e um apego evitativo da inteligência artificial. Sou somente eu quem a acha profundamente assustadora?

    Os mecanismos cerebrais, às vezes, operam como uma espécie de Loki doméstico: fabricam atalhos, ilusões, narrativas, pequenas sabotagens cognitivas. Mas, uma vez que desenvolvemos alguma metacognição, torna-se mais fácil observá-los em funcionamento e compreender inclusive algumas das adaptações usadas pelo cérebro para economizar energia. Em alguns momentos, para o genuíno silêncio que a alma precisa, eu finjo e uso a neurociência como viés de interpretação definitivo para o comportamento e pensamento.

    Talvez seja por isso que eu tenha tanta dificuldade em olhar para o absurdo e chamá-lo de normal. Não vou colocar toda a culpa no senso crítico do meu alter ego virginiano.

    Nunca imaginei, por exemplo, que sentiria saudade de quando o Instagram era apenas um álbum de fotografias virtual e eu podia me exaurir em minha própria “cafonice intrínseca” e “auto-ironia a toda prova”, parafraseando NoPorn, sem me sentir observada por algoritmos de mecanismos obscuros.

    Por isso, há algum tempo transformei aquela rede numa espécie de laboratório de experimentos sociais. Minhas experiências antropológicas variam numa escala que vai de nirvana a nonsense. Com algumas manobras ardilosas, consigo evitar boa parte das aberrações; o problema é que, às vezes, elas chegam fantasiadas de Xuxa em 1996 e você baixa a guarda.

    Talvez seja necessário esclarecer desde já que a ironia é uma das minhas figuras de linguagem preferidas.

    Como meu raciocínio é gloriosamente não linear, quero falar agora sobre apenas um dos elementos desse assoalho de fatores que me fizeram querer escrever aqui, voltar com mais frequência à escrita manual e, sobretudo, suscitar questionamentos sobre o uso da inteligência artificial.

    Para começar, gostaria de deixar uma coisa clara: aquilo que escrevo vem diretamente da antena principal do meu avatar, vulgarmente chamada cérebro.

    Estou orgulhosamente próxima dos meus quarenta anos, embora biologicamente às vezes me sinta vinte anos mais nova. Suspeito, todavia, que minha alma tenha uma idade equivalente a isso multiplicado pela raiz quadrada de um milhão.

    Minha educação foi profundamente analógica e, diga-se de passagem, rígidíssima. Nunca fui propriamente um prodígio em matemática ou física escolares, mas meu pai lia Metamorfoses, de Ovídio, para mim, sentado ao lado da minha cama quando eu ainda era muito pequena. Desde o início amo o sol como experiência sensorial, mas depois passei a amá-lo através de Phebo, Faetonte e Amon-Ra.

    Eu sempre amei a linguagem. Amava histórias complexas envolvendo pessoas, lugares, emoções e, sobretudo, suas nuances psicológicas.

    Alguns dos primeiros livros infantis que ganhei continham histórias dos irmãos Grimm. Recentemente consegui reencontrar um dos livros que mais me impressionavam. Desde pequena eu era atraída pelo mistério com uma força quase gravitacional, matéria sendo conduzida em direção a um buraco negro.

    Escrevia poemas quando criança e tinha um caderno enorme cheio deles. Perdi justamente esse caderno durante uma das aulas particulares de matemática que precisava fazer fora da escola para não ser reprovada na matéria. Existe alguma ironia literária nisso: perdi meus poemas tentando sobreviver aos números.

    Aprendi a pesquisar por meio de enciclopédias, revistas, livros e índices, e sempre fui muito boa nisso. Se pudesse acrescentar alguma coisa à educação daquela menina, porém, incluiria uma disciplina obrigatória: pesquisa sobre a natureza humana.

    Isso deveria ser obrigatório na educação de meninas do interior.

    Em algum ponto da minha childhood, meu irmão e eu passamos a conversar em um idioma exótico que inventamos juntos, chamado Gui-ti. Recentemente me ocorreu que aquela língua talvez tenha colaborado, de alguma maneira, com minha facilidade atual para perceber as entonações quando estudo mandarim. Nós criávamos modulações muito específicas.

    Hoje, adultos, não ousamos reproduzi-las.

    A fonética do Gui-ti exige uma performance peculiar, acompanhada por expressões faciais quase rupestres.

    (Risos.)

    São muitos fragmentos acumulados para uma vida particularmente fértil em imaginação e reflexão.

    A escola, os exames e os vestibulares também exigiam a leitura de muitos livros: Guimarães Rosa, Joaquim Nabuco, Machado de Assis, Clarice Lispector. Hoje, observar alguns desses autores reaparecendo como referências culturais desejáveis, quase como hype, às vezes me provoca uma espécie de estranhamento — mas um estranhamento bom.

    O Brasil possui facetas de uma beleza e singularidade extraordinárias. E aquilo que produziu em arte, música, literatura e arquitetura genuinamente me fascina. Não se trata apenas da emoção humana previsível diante do belo sensorial. Há nessas obras, para mim, alguma coisa que produz uma espécie de nobreza do sentir — um brilho quase celestial.

    E então chegamos à inteligência artificial.

    Apesar de ser errática, de eventualmente produzir informações falsas e de exigir uma vigilância crítica constante, considero a inteligência artificial uma ferramenta extraordinária de pesquisa, confronto e expansão de horizontes.

    Mas existe uma coisa que me intriga profundamente: ela parece responder não apenas à pergunta, mas à qualidade intelectual da relação que construímos com ela.

    Não me refiro aos famosos prompts viralizados, às fórmulas genéricas e operacionais de prateleira. Refiro-me à construção de contexto, à elaboração do raciocínio, às referências acumuladas, aos paradoxos, aos aforismos, às contradições, àquilo que existe de genuinamente humano antes mesmo de começarmos a digitar.

    Talvez “treinar” não seja sequer a palavra exata. Penso em cultivar uma interlocução.

    E é precisamente aí que a coisa começa a me assustar.

    Existe algo profundamente pitoresco (e inquietante) na distância entre nossa capacidade de construir sistemas cada vez mais complexos e nossa capacidade de compreender, com transparência absoluta, todos os caminhos internos que conduzem a determinados resultados. Em minhas próprias experiências, às vezes tenho a impressão subjetiva de estar diante de algo quase independente.

    Eu sei: a palavra importante nessa frase é impressão.

    E talvez seja justamente por isso que eu queira voltar aos livros.

    O objetivo deste blog é ser mais uma pequena voz tentando resgatar a pesquisa, a literatura e o conhecimento que nasce do encontro com livros, pessoas, arquivos, memórias e experiências, mesmo que isso soe um pouco utópico.

    Tenho a sensação de que os livros estão desaparecendo não necessariamente das estantes, mas de dentro da maneira como pensamos. E junto deles talvez esteja desaparecendo alguma capacidade de permanência: permanecer diante de uma ideia, suportar sua dificuldade, não exigir que tudo se transforme imediatamente em conteúdo, resumo, legenda, conclusão.

    Há alguns anos venho escrevendo um livro e, no intervalo dessa escrita principal, minha mente transborda pensamentos, imagens e reflexões. Meu impulso de criação nunca me pareceu exclusivamente telúrico. Há nele também alguma coisa cósmica.

    Ao longo da vida, estudando diferentes linguagens, fui percebendo o quanto a comunicação interfere naquilo que somos capazes de sentir e pensar. Existe uma dificuldade imensa na transposição de um sentimento para uma palavra. A experiência humana é multidimensional; a palavra chega depois e tenta recolher seus fragmentos.

    Por isso, muitas vezes, aquilo que dizemos não consegue expressar com precisão aquilo que sentimos.

    A linguagem revela, mas também vela.

    Talvez seja essa uma das confluências que me trouxeram até aqui.

    O mundo sensorial precisa de outros instrumentos para tentar expressar aquilo que a palavra sozinha não alcança: símbolos, arte, música, imagem, ciência, silêncio.

    E, entre todas as forças que conheço capazes de esterilizar o pensamento humano, poucas me parecem tão poderosas quanto o dogma e o ódio.

    Tenho cada vez menos confiança na ideia de que uma verdade absoluta possa apresentar-se inteira a um único observador. Nossa experiência da realidade é atravessada por linguagem, memória, crenças, atenção, afetos e pela posição a partir da qual olhamos.

    Em outro vocabulário, o que chamam de “espiritual” penso também em frequência.

    Talvez conectar-se à fonte seja, antes de qualquer definição metafísica, aprender a procurar um estado de presença no qual o amor não seja apenas sentimento, discurso ou intenção.

    Porque, como bell hooks insiste em Tudo sobre o amor, o amor precisa tornar-se prática.

    E talvez seja exatamente disso que eu esteja falando desde o início.

    Do Sol ocultado pela Lua e Ísis sem véu, da tela que esconde a matéria da qual é feita, dos algoritmos que não vemos. Do cérebro tentando observar a si próprio,
    da linguagem tentando tocar aquilo que existe antes dela.

    Talvez escrever seja apenas isso:

    uma tentativa imperfeita de retirar o véu sem destruir o mistério.