Uma crônica sobre a história de Isidora e Thalia
Isidora conservava sobre a escrivaninha uma antiga tigela sonora de bronze cuja procedência ninguém jamais conseguira determinar com suficiente segurança, e talvez fosse precisamente essa ausência de genealogia que a fizera conservar o objeto por tantos anos. Comprara-o ainda muito jovem numa cidade do sul que preferia recordar por um de seus nomes mortos, al-Andalus, não por preciosismo histórico, mas porque desde cedo percebera que determinadas cidades carregavam tantas sobreposições de povos, línguas, crenças e destruições que o nome contemporâneo parecia insuficiente para contê-las. A loja ficava numa rua estreita, daquelas em que os edifícios parecem ter sido construídos não apenas ao lado uns dos outros, mas uns sobre as memórias dos outros; havia ali restos de arcos que pertenciam a uma geometria anterior, pedras reaproveitadas em fachadas posteriores, uma construção religiosa cuja forma ainda guardava alguma coisa de um culto substituído por outro, e, um pouco adiante, o vestígio de uma antiga casa de câmbio. Isidora gostara imediatamente daquela vizinhança entre o lugar onde os homens procuravam o invisível e aquele onde haviam aprendido a atribuir equivalências ao ouro, às moedas e às mercadorias, porque já então começava a suspeitar que uma parte considerável da história humana pudesse ser compreendida como uma tentativa de conferir medida precisamente àquilo que não possuía medida.
O comerciante, um homem de mãos excessivamente limpas para alguém cercado de antiguidades, advertira que a tigela provavelmente não era tibetana, embora tivesse sido fabricada para despertar exatamente essa impressão. Talvez tivesse algumas décadas apenas; talvez houvesse saído de uma oficina situada muito longe das montanhas que os europeus associavam ao silêncio dos mosteiros, e talvez as pequenas marcas que circundavam seu exterior não fossem uma escrita sagrada, mas uma ornamentação criada por alguém que compreendia suficientemente bem o desejo ocidental pelo remoto. Isidora a tomou entre as mãos e passou os dedos pelas irregularidades deixadas pelo martelo. A revelação de sua provável inautenticidade não lhe pareceu uma decepção; ao contrário, fez com que desejasse o objeto ainda mais. Alguém aquecera aquele metal. Alguém golpeara repetidamente o bronze para obrigá-lo a adquirir forma. Havia diferenças mínimas na espessura, imperfeições quase invisíveis, pequenas hesitações que uma máquina talvez tivesse eliminado e que, para ela, constituíam justamente o testemunho de que uma consciência estivera ali.
Começou a imaginar as mãos que a haviam fabricado. Não o monge que o vendedor poderia ter inventado para multiplicar seu preço, mas uma pessoa comum, talvez cansada, talvez preocupada com alguma dívida, talvez apaixonada, talvez irritada por precisar repetir aquele mesmo movimento dezenas de vezes. Imaginou uma oficina quente, outras tigelas empilhadas, o metal mudando lentamente de comportamento sob o impacto. A narrativa era inteiramente inventada e, ainda assim, Isidora teve a impressão de que continha mais humanidade do que uma falsa certificação de autenticidade poderia conter. Foi talvez nesse instante que formulou uma das ideias que permaneceriam com ela por toda a vida: a falsificação pode mentir acerca da própria origem e, simultaneamente, revelar uma verdade sobre aquele que a produziu, sobre aquele que a vendeu e, sobretudo, sobre aquele que necessita acreditar nela.
Sempre desconfiara da obrigação de que uma coisa fosse autêntica para possuir significado. A autenticidade lhe parecia uma qualidade importante, mas nunca uma condição absoluta da verdade. Um mito podia ser historicamente falso e psicologicamente exato; uma cópia podia sobreviver ao original e tornar-se, pela própria sobrevivência, a única forma através da qual o original continuaria existindo; um restaurador podia acrescentar a um afresco aquilo que julgava estar apenas recuperando; uma memória podia deformar um acontecimento e, nessa deformação, revelar com uma precisão extraordinária o desejo de quem lembrava. Isidora descobriria mais tarde que até os seres humanos vivem cercados por cópias de si mesmos: a pessoa que imaginam ser, aquela que os outros pensam conhecer, aquela que foram vinte anos antes e continuam defendendo, aquela que se torna possível apenas diante de alguém específico. O problema talvez nunca tivesse sido simplesmente distinguir o verdadeiro do falso, mas perguntar que necessidade havia produzido cada versão.
Ao redor da tigela ela mantinha uma pequena constelação de objetos cuja disposição mudava ocasionalmente, embora jamais obedecesse a uma simetria completa. Havia uma pluma clara, uma pequena esmeralda que recebera do pai, fragmentos de mármore recolhidos nas proximidades de uma necrópole da cidade soterrada pelo Vesúvio, um topázio, um quartzo rosado, uma turmalina escura e um pequeno recipiente de cobre cuja superfície começara a adquirir uma pátina irregular. O cobre lhe interessava menos pelas propriedades espirituais que alguns lhe atribuíam do que pela antiga correspondência com Vênus e pela extraordinária honestidade de seu envelhecimento. Ao contrário dos materiais que parecem resistir ao contato com o mundo, o cobre o registra. O ar deixa marcas, a umidade escreve sobre ele, as mãos participam lentamente de sua transformação. Isidora pensava que certos seres humanos também possuíam essa qualidade: não atravessavam uma experiência sem permitir que alguma coisa dela se tornasse visível.
A esmeralda pertencia a outra espécie de significado. Seu pai a colocara em suas mãos muitos anos antes, e desde então Isidora desconfiava de que determinados objetos adquiriam uma segunda matéria quando recebidos de alguém que amávamos. Continuavam sendo minerais, metais, madeira ou tecido, e nada em sua composição física se alterava, mas algo passava a existir na relação entre o objeto e aquele que o guardava. A ciência poderia descrever todos os elementos da esmeralda e ainda assim nada saberia sobre a tarde em que ela fora oferecida. Isidora não via nisso uma insuficiência da ciência; seria absurdo exigir de um instrumento que respondesse a uma pergunta para a qual não havia sido construído. Era a própria existência humana que se organizava simultaneamente em registros diferentes, e uma das grandes confusões de sua época, pensava, consistia em obrigar um deles a provar aquilo que pertencia ao outro.
Os mármores de Pompeia lhe ensinavam o movimento contrário. Eram pequenos demais para possuir qualquer valor arqueológico e teriam parecido insignificantes a quase qualquer pessoa, mas haviam permanecido próximos de uma cidade que sobrevivera à própria destruição. Isidora gostava da ironia dessa formulação: Pompeia fora conservada precisamente pela força que a havia aniquilado. O Vesúvio destruíra vidas, casas, projetos, conversas, refeições interrompidas, desejos que ninguém saberia reconstruir; ao mesmo tempo, criara as condições pelas quais uma parcela extraordinária daquele mundo seria preservada. Desde cedo ela aprendera a desconfiar de qualquer filosofia que transformasse a destruição em benefício apenas porque algum resultado posterior pudesse ser considerado valioso. A preservação de Pompeia jamais justificaria Pompeia ter sido destruída. Essa distinção, aparentemente simples, voltaria muitos anos depois, quando alguém lhe dissesse que determinado sofrimento fora necessário para sua evolução.
Isidora sempre preferira as assimetrias. Não porque considerasse imperfeita a simetria, mas porque suspeitava que a perfeição geométrica, quando encontrada na natureza, raramente sobrevivia a uma observação suficientemente próxima. Duas folhas podiam parecer correspondentes até que se observassem suas nervuras; dois lados de um rosto podiam sustentar uma harmonia exatamente porque não eram idênticos; um cristal podia obedecer a determinada estrutura e ainda conter inclusões que registravam o acidente de sua formação. Quando criança, imaginava que, se pudesse penetrar indefinidamente a matéria, encontraria uma sucessão quase interminável de ordens e desordens: uma simetria revelaria uma assimetria quando vista de perto, que por sua vez participaria de outra ordem quando observada numa escala diferente, até que a própria distinção entre ordem e caos talvez se tornasse uma limitação do observador.
Essa intuição lhe parecera durante anos apenas uma fantasia. Mais tarde, ao estudar alguma física e compreender o quanto a matéria divergia da imagem compacta que os sentidos produziam dela, sentiu o mesmo prazer que experimentara ao encontrar ideias semelhantes às suas em livros muito mais antigos. Não porque a ciência confirmasse suas metáforas – aprenderia a resistir cada vez mais a essa tentação -, mas porque o real lhe parecia ainda mais estranho quando não era necessário falsificá-lo.
A pergunta sobre a justiça também começara muito antes de Thalia.
Isidora não recordava um momento específico em que tivesse passado a duvidar dela; era mais provável que nunca tivesse acreditado inteiramente na versão que recebera. Na infância, enquanto os adultos lhe explicavam que Deus era infinitamente justo, também descreviam punições eternas, recompensas, interdições e um adversário cuja função parecia consistir em oferecer à imaginação infantil a imagem absoluta daquilo que deveria ser temido. A contradição a inquietava antes mesmo que possuísse palavras para formulá-la. Se uma pessoa fazia o bem unicamente porque temia o inferno, perguntava-se em silêncio, onde exatamente estava a bondade? Talvez houvesse apenas prudência.
O Deus de sua infância parecia existir fora do tempo e do espaço, como uma consciência encarregada de registrar cada pensamento e distribuí-lo posteriormente entre recompensa e castigo. Isidora jamais conseguira deixar de perceber quanto aquela divindade se parecia com os homens que a descreviam. Possuía preferências, ofendia-se, exigia fidelidade, desaprovava perguntas inconvenientes, distinguia obedientes de rebeldes e, em algumas narrativas, parecia mais preocupado em ser reconhecido do que qualquer inteligência infinita deveria estar. Havia nesse Deus algo excessivamente humano, mas não no sentido belo de possuir compaixão ou vulnerabilidade; era humano sobretudo naquilo que lembrava poder.
O Diabo não lhe parecia mais convincente. Desde muito cedo, Isidora suspeitava de que a divisão absoluta entre ambos talvez dissesse menos sobre a estrutura do cosmos do que sobre uma operação psíquica elementar: aquilo que o homem deseja reconhecer em si é elevado, aquilo que não suporta reconhecer é lançado para baixo. A luz encontra morada no céu, a crueldade é enviada ao inferno, e entre ambas permanece a criatura humana afirmando que uma dessas regiões não lhe pertence. Mais tarde Jung lhe ofereceria outra linguagem para aquilo que ela intuía de maneira rudimentar, mas a percepção original permaneceria: projetar a sombra para fora não a elimina; apenas nos torna menos capazes de reconhecê-la quando ela retorna usando nosso próprio rosto.
Antes de Nietzsche, porém, existira Sofia.
Isidora a conhecera por meio de um livro quando ainda estava na adolescência, e durante algum tempo achara delicioso o fato de que a filosofia pudesse começar com uma personagem cujo próprio nome significava sabedoria. Muito mais tarde encontraria Sofia novamente em tradições gnósticas, em personificações esotéricas da sabedoria e em sistemas nos quais o conhecimento não era apenas um acúmulo de respostas, mas uma espécie de queda e retorno. Na primeira vez, contudo, ela era apenas uma menina dentro de um livro conduzindo outra menina por perguntas que pareciam tornar o mundo mais vasto.
Nietzsche apareceu depois, numa edição que pertencera a seu pai e trazia consigo algo dos anos oitenta: papel amarelado, marcas antigas, talvez uma anotação que Isidora jamais conseguiu identificar com segurança. A primeira leitura foi um fracasso fértil. Ela compreendeu pouco e, justamente por isso, descobriu que existiam pensamentos cuja complexidade não podia ser reduzida sem perda. Havia passado parte da adolescência em ambientes nos quais compreender significava frequentemente conseguir repetir uma resposta correta. Nietzsche lhe apresentou a possibilidade de que compreender também pudesse significar permanecer tempo suficiente diante de uma contradição para permitir que ela destruísse uma pergunta mal formulada.
Anos depois, numa conversa de jovens leitores, ouviu pela primeira vez a história do cavalo de Turim. Alguém contou que Nietzsche, ao ver um cocheiro açoitar brutalmente um cavalo, aproximara-se do animal, abraçara-lhe o pescoço e pouco depois mergulhara no colapso do qual jamais retornaria plenamente. Isidora descobriria posteriormente que a cena sobrevivera sobretudo como narrativa e que seus detalhes não possuíam a segurança documental que a imaginação coletiva lhes conferira. Isso apenas a tornou mais interessante. O homem que passara décadas escavando as genealogias da moral acabara transformado numa parábola sobre compaixão. Talvez a história fosse verdadeira, talvez não; em ambos os casos, dizia alguma coisa sobre o que os homens desejaram encontrar no fim de Nietzsche.
Isidora nunca viu naquele episódio uma conversão sentimental. O que a perturbava era outra possibilidade: talvez uma consciência que tenha olhado longamente para a fabricação humana do bem e do mal não se torne necessariamente incapaz de compaixão; talvez se torne, em certas circunstâncias, ainda menos protegida diante do sofrimento nu, justamente porque já não dispõe das explicações confortáveis que costumam revesti-lo.
Foi com Sofia, Nietzsche, Platão, algumas leituras da Cabala, incursões por Jung, Lacan, Deleuze, tradições antroposóficas, teosóficas, mitologias japonesas, textos herméticos e a curiosidade um tanto indisciplinada de quem nunca acreditara que uma única disciplina pudesse esgotar qualquer pergunta importante que Isidora chegou, muitos anos depois, a Mediolanum.
A cidade moderna possuía outro nome, evidentemente, mas Isidora preferia ocasionalmente devolvê-la aos romanos. Hospedava-se num apartamento em Brera, numa construção de pé-direito alto cujas paredes pareciam guardar melhor o inverno do que o calor. Gostava das portas antigas, dos pisos perfeitamente nivelados, da lareira ornamentada elegantemente, da maneira como a luz do fim da tarde atravessava as janelas e modificava a cor do interior sem que nenhum objeto realmente mudasse. Na primeira noite em que viu Thalia, o bairro estava cheio de jovens. Havia vozes, cigarros, taças, casacos escuros, bicicletas encostadas junto às paredes e uma espécie de movimento contínuo que fazia as pessoas parecerem parte da própria rua.
Thalia estava numa esquina, ligeiramente afastada, num ponto em que a iluminação pública não alcançava inteiramente o rosto.
Isidora recordaria essa imagem centenas de vezes e, com o tempo, passou a desconfiar dela. A memória possui uma tendência quase sacerdotal para transformar circunstâncias banais em símbolos depois que conhece aquilo que aconteceu. Uma mulher na penumbra torna-se prenúncio; uma frase casual, profecia; uma hesitação que não significava nada adquire importância retrospectiva. Isidora recusava-se a conceder àquela primeira sombra o privilégio de ter previsto o futuro, embora reconhecesse que a imagem permanecera.
Chamou-a posteriormente de Thalia porque o nome evocava florescimento, e talvez nenhuma palavra descrevesse melhor o equívoco original. Isidora acreditara ver nela uma possibilidade ainda não realizada.
A beleza era evidente, mas não foi o que a aproximou. Havia nos olhos da jovem algo que Isidora interpretou como solidão. Não uma solidão romântica, bela sob a luz de uma cidade estrangeira, mas aquela espécie de vigilância que algumas pessoas desenvolvem quando aprenderam a observar o ambiente antes de relaxar dentro dele. Thalia falara fragmentariamente sobre a mãe, sobre uma espécie de distância antiga dentro da própria história, sobre lugares em que estivera cercada de gente sem necessariamente ter se sentido acompanhada. Isidora escutou aquilo com a atenção que sempre dedicara às genealogias afetivas.
Mais tarde perguntaria se escutara Thalia ou se escutara demasiadamente aquilo que a história dela havia despertado em si.
Essa distinção tornou-se central.
Os olhos, pensava, nunca foram simplesmente janelas da alma. A metáfora era bela demais e, por isso mesmo, perigosa. Uma janela pressupõe que exista atrás dela um aposento que podemos observar. O olhar humano é mais instável. Revela e dissimula; responde ao observador; pode carregar verdade e defesa simultaneamente. Às vezes não enxergamos aquilo que há nos olhos do outro, mas aquilo que nossa própria história se tornou particularmente hábil em reconhecer.
Isidora não apenas se apaixonou. Acreditou.
E havia uma diferença importante entre as duas coisas. A paixão pode sobreviver sabendo que está intoxicada; a confiança, ao contrário, costuma construir razões. Ela arquiteta uma teoria do outro. Recolhe indícios, interpreta gestos, organiza contradições e, se a teoria se torna afetivamente preciosa, pode utilizar a própria inteligência para protegê-la.
Talvez esse tivesse sido o erro mais sofisticado de Isidora: não ignorar sinais, mas tornar-se hábil demais em interpretá-los.
Sua curiosidade pela psicologia começara muito cedo. Uma educação rígida lhe ensinara, ainda pequena, que os estados internos dos adultos possuíam consequências e que observar cuidadosamente uma mudança de tom, uma demora numa resposta ou um silêncio podia ser uma forma de orientação. Aquilo que começara como sensibilidade transformou-se depois em estudo. Jung, Lacan e tantos outros deram vocabulário a mecanismos que ela antes apenas percebia. Com Deleuze aprendera a desconfiar de certas teorias que reduziam o desejo à falta; com Jung, aprendera a procurar aquilo que a consciência excluía e o contínuo trabalho da sombra; com Lacan, compreendeu o quanto a relação com o outro também se entrelaça àquilo que esperamos encontrar no olhar dele.
O resultado dessa formação, contudo, possuía uma armadilha: Isidora conseguia produzir explicações para quase tudo. Uma evasão podia ser defesa, uma contradição podia revelar medo, uma incapacidade de reciprocidade podia ter origem numa história de abandono, uma atitude moralmente pobre podia ser compreendida como repetição de uma ferida. Tudo isso podia ser verdadeiro. A falha estava em supor que a verdade psicológica de uma causa alterava automaticamente o significado ético de uma consequência. Demorou a aprender que compreender não é absolver. E, mais ainda, que algumas vezes a compreensão excessiva se converte numa forma refinada de evitar a evidência.
A amizade que ofereceu a Thalia, entretanto, jamais lhe pareceu um erro. Essa parte de sua história ela se recusaria a adulterar em nome de uma maturidade posterior. Havia sido sincera. Isidora não sabia amar contabilizando e, nas poucas vezes em que amara verdadeiramente, desejara que o outro expandisse a própria existência. Queria que encontrasse possibilidades, que se tornasse menos limitado por medos herdados, que pudesse reconhecer a própria inteligência e construir uma vida que não dependesse continuamente de mecanismos de defesa. A alegria da pessoa amada produzia nela uma expansão quase física, como se o florescimento do outro ampliasse também o território do mundo.
Somente muito mais tarde Isidora perguntaria o que havia, além de amor, dentro dessa capacidade. E constataria que na verdade o amor nunca esteve presente, até mesmo com pessoas anteriores. Talvez ela nunca tenha amado de verdade. Porque nenhuma virtude atravessa a psique em estado alquímico puro.
Quando a existência deixou de exigir que Isidora oferecesse e passou a exigir que recebesse, algumas diferenças tornaram-se impossíveis de sublimar. Houve um período em que o corpo a obrigou a recordar aquilo que toda abstração espiritual ocasionalmente tenta esquecer: somos também carne, tecido, vulnerabilidade, medo e uma organização provisória da matéria que pode falhar sem consultar nossa filosofia. Durante esse tempo, Isidora não esperava ser salva. Esperava algo muito menor e, justame2nte por isso, mais revelador: a passagem do afeto da linguagem ao gesto.
Foi então que percebeu que algumas pessoas sabem acompanhar aquilo que em nós é luminoso, interessante, produtivo ou belo, mas encontram grande dificuldade diante daquilo que simplesmente exige presença. Não transformou essa percepção em sentença imediata. A vida alheia possuía regiões que ela jamais conheceria completamente. O que se tornou difícil ignorar foi a repetição de uma mesma estrutura: quando determinada situação exigia responsabilidade, permanência ou uma definição menos conveniente, surgia uma forma de desaparecimento. Promessas moviam-se para uma data posterior, compromissos tornavam-se progressivamente ambíguos e coisas cuja natureza inicialmente parecera indiscutível começavam a exigir explicações que nunca haviam sido necessárias quando Isidora as oferecera.
Foi a inversão que finalmente lhe chamou a atenção. Em algum ponto, percebeu que estava sendo conduzida a justificar por que esperava a preservação de algo que jamais deveria ter sido transformado em objeto de disputa. A partir daí, sua pergunta deixou de ser apenas afetiva e tornou-se novamente filosófica.
Por que necessitava tanto que Thalia compreendesse? A pergunta foi mais perturbadora do que qualquer acusação que poderia dirigir à outra mulher.
Isidora queria que determinados fatos fossem reconhecidos, naturalmente. Mas desejava também uma forma de equivalência interior: que a consciência de Thalia chegasse ao mesmo lugar moral a que a sua havia chegado. Queria que ela compreendesse o significado do próprio gesto e, por meio desse reconhecimento, reorganizasse retrospectivamente o acontecimento. Foi quando descobriu que, tendo retirado Deus de sua antiga arquitetura moral, deixara a cadeira do juiz desocupada. Thalia deveria ocupá-la.
Aquele que causara a ferida deveria transformar-se também no intérprete perfeito dela. Deveria reconhecer, nomear, compreender e finalmente produzir a sentença que devolveria ao acontecimento alguma ordem.
Isidora percebeu então uma crueldade involuntária que às vezes praticamos contra nós mesmos: exigir daquele cuja consciência permitiu determinada ação exatamente a lucidez moral que talvez lhe faltasse para não praticá-la.
A responsabilidade não dependia dessa lucidez posterior. Mas sua paz, até então, ainda dependia.
Foi nessa época que Dworkin lhe retornou à memória, estranhamente, ao lado de Platão. Ela havia estudado Direito muitos anos antes e sempre percebera uma diferença fascinante entre a justiça como ideal filosófico e a justiça como trabalho humano. Platão podia imaginar uma harmonia adequada entre as partes da alma e da cidade; o Direito precisava decidir o que fazer numa terça-feira, diante de pessoas concretas que discordavam radicalmente sobre o que havia acontecido. Dworkin, com sua imagem do romance em cadeia, parecera-lhe especialmente elegante: cada intérprete recebe capítulos que não escreveu e precisa continuar a história de uma forma que conserve alguma integridade com aquilo que veio antes. Muitos anos depois, Isidora percebeu o quanto aquela metáfora extrapolava o Direito.
Ninguém escreve todas as primeiras páginas da própria existência. Recebemos uma língua, uma família, um corpo, uma época, histórias anteriores, crenças, feridas, privilégios, ausências. Entramos num manuscrito já iniciado. Isso não significa que qualquer página seguinte seja inevitável. A responsabilidade começa precisamente onde o texto recebido encontra a mão que continuará escrevendo.
Talvez a justiça humana tivesse surgido, pensou Isidora, justamente porque nenhuma pessoa pode depender da consciência privada de outra para existir em segurança. Construímos leis, provas, testemunhos, contratos e instituições porque a conversão moral não pode ser condição prévia para toda reparação. Um tribunal não precisa penetrar a alma. Precisa, em seus melhores momentos, estabelecer o que ocorreu e qual consequência humana pode ser produzida a partir daí. A justiça metafísica era outra coisa.
Se houvesse uma inteligência encarregada de equilibrar cada sofrimento, seria necessário explicar uma quantidade quase obscena de desequilíbrio. Isidora nunca conseguira aceitar respostas fáceis para crianças que morriam, povos aniquilados, existências devastadas por acontecimentos que nenhum aprendizado posterior poderia tornar necessários. A ideia de que uma alma tivesse escolhido previamente determinado sofrimento para evoluir lhe parecia, em alguns contextos, apenas uma forma espiritualmente decorada de crueldade. Transformava vítimas em autoras ocultas da própria catástrofe e transformava quem ferira em instrumento involuntário de uma pedagogia cósmica.
Talvez o universo não fosse justo. Essa hipótese já não lhe parecia niilista.Talvez justiça fosse uma invenção humana precisamente porque o universo não a fornecia pronta. Talvez a dignidade estivesse nisso.
Foi nessa região de pensamento que Isidora abandonou parte de sua antiga linguagem sobre energia sem abandonar inteiramente aquilo que tentava dizer através dela. Não precisava acreditar que pensamentos emitiam uma frequência magnética capaz de convocar determinadas pessoas. Havia uma cadeia mais complexa e muito mais plausível: aquilo que pensamos altera o que percebemos; aquilo que percebemos participa de nossas escolhas; as escolhas repetidas produzem hábitos; hábitos constroem ambientes; os ambientes tornam algumas relações mais prováveis que outras; e as relações devolvem novas informações àquilo que pensamos sobre nós mesmos. O chamado campo de uma pessoa podia ser compreendido, então, como uma ecologia psíquica. Nesse sentido, Thalia pertencia também à região de responsabilidade de Isidora.
Não os atos de Thalia.
Esses pertenciam a Thalia.
Mas a arquitetura através da qual Isidora a deixara permanecer.
Foi algum tempo depois dessa percepção que ela teve o sonho da cidade de tijolos.
Dormia numa região distante dos velhos mapas europeus, em terras de montanhas antigas, rios ferruginosos e árvores que sua imaginação infantil sempre tratara como máquinas vivas. Quando criança, Isidora subia nelas com uma facilidade que preocupava os adultos e permanecia durante horas entre galhos altos, imaginando que as copas eram naves estacionadas e que as árvores talvez observassem os homens numa escala de tempo diferente. No sonho, entretanto, não havia nenhuma delas. Havia canais, muros de barro, plataformas escalonadas, poeira clara e um céu tão amplo que Isidora supôs estar numa Suméria que jamais existira fora da combinação entre suas leituras e sua imaginação. Os anunnaki, por fim, resolveram não retornar. À margem de um canal, um homem derramava água continuamente sobre uma planta.
A princípio ela crescia. Depois o solo começou a desfazer-se ao redor das raízes. Isidora perguntou por que ele continuava. O homem respondeu que aquilo que possuía para oferecer era água. Mais adiante, uma mulher cortava os ramos de uma árvore. Alguns estavam vivos. Isidora perguntou por que removia aquilo que ainda podia crescer.
A mulher respondeu que viver e servir à vida não eram sempre a mesma coisa.
No sonho, Isidora soube que o homem se chamava Chesed. Não porque ele pronunciasse o nome, mas porque os sonhos às vezes nos oferecem conhecimento sem intermediário. A mulher carregava outra qualidade. Seu nome lhe chegou como uma sensação de força, limite e julgamento: Geburah.
Ao despertar, a claridade ainda não havia alcançado completamente o quarto. Sobre a mesa de cabeceira de cerejeira repousava um livro relacionado a Jung, arquétipos e tarô, e Isidora permaneceu olhando durante algum tempo para os veios avermelhados da madeira. Lembrou-se das cerejeiras japonesas e da maneira como sua beleza fora tantas vezes associada à transitoriedade. Aquela árvore, transformada em móvel, já não floresceria; ainda assim conservava na matéria a memória estrutural de ter sido árvore.
Foi então que Tiferet lhe ocorreu de outra maneira.
Durante muito tempo compreendera intelectualmente que a beleza central não consistia na vitória de Chesed sobre Geburah nem de Geburah sobre Chesed, mas na proporção capaz de integrar ambos. No sonho essa ideia deixara de ser abstrata. A água que nutre pode afogar. A lâmina que destrói pode salvar uma árvore. A mesma força muda de significado de acordo com sua medida. A beleza, portanto, não estava necessariamente na suavidade. Estava na proporção.
Isidora nunca acreditara que amor verdadeiro significasse ausência de limites; essa interpretação lhe parecia infantil. O que passou a compreender de maneira mais profunda era que o limite não se encontra fora do amor como uma violência aplicada posteriormente. Em certas circunstâncias, é uma de suas formas internas. Uma casa sem portas não é infinitamente hospitaleira. Talvez seja apenas incapaz de distinguir chegada de invasão.
O erro tampouco estava em ter achado que havia amado demais. Essa formulação produzia nela certo incômodo porque transformava falta de discernimento em excesso de virtude. O amor não precisava ser diminuído. Precisava tornar-se mais consciente da arquitetura através da qual se oferecia. Jung apareceu então no lugar menos confortável: Seria demasiado simples transformar Thalia na sombra. Uma narrativa em que uma pessoa é luz e a outra escuridão produz alívio moral, mas pouca transformação. Os fatos podiam continuar sendo assimétricos; responsabilidades não precisavam ser iguais para que Isidora investigasse aquilo que sua própria história havia colocado na amizade. Perguntou-se então o que existira dentro de sua generosidade além da generosidade.
Encontrou amor verdadeiro, e não permitiria que nenhuma análise posterior o tornasse falso apenas porque fora oferecido ao lugar errado. Encontrou lealdade, compaixão, curiosidade genuína pela interioridade de outra pessoa. Mas encontrou também algo mais delicado: uma confiança quase vaidosa em sua capacidade de compreender. Havia acreditado, talvez, que enxergar suficientemente fundo as origens de um comportamento lhe permitiria auxiliar a pessoa a atravessá-lo. Essa esperança carregava uma forma discreta de poder. Não era maldade.
Era sombra. A sombra de uma qualidade não precisa ser seu oposto. Às vezes é apenas aquilo que a qualidade desconhece sobre si mesma.
Foi assim que o karma começou finalmente a mudar de significado.
Durante algum tempo, Isidora afirmara acreditar que toda energia retornava à origem. Não desejava sofrimento a ninguém, dizia. Apenas confiava numa espécie de neutralidade cósmica em que cada escolha encontraria, em algum ponto, uma consequência correspondente. Nietzsche talvez tivesse reconhecido nessa formulação algo que ela própria demorou a admitir: uma necessidade de compensação vestida de metafísica.
O problema não estava em desejar vingança. Isidora genuinamente não precisava e não conseguia imaginar Thalia sofrendo. Era mais sutil. Queria que o universo demonstrasse que havia compreendido. Queria correspondência.
E se sua serenidade dependesse da futura educação moral da outra mulher, ela permaneceria ligada a ela de uma maneira tão eficaz quanto se ainda esperasse que a balança ficasse equilibrada. O ressentimento, compreendeu, é uma forma negativa de fidelidade. Ainda organizamos uma parcela da própria existência ao redor daquele de quem afirmamos querer libertar-nos.
Isidora começou então a pensar o karma menos como punição e mais como formação. Uma ação exterior não modifica apenas o mundo sobre o qual incide; modifica também, por repetição, a pessoa para quem aquele ato se tornou possível. Mentir uma vez não determina uma identidade. Mentir repetidamente cria atalhos. O que era exceção transforma-se em mecanismo; o mecanismo torna-se hábito; o hábito reorganiza a percepção da realidade.
Talvez alguém pudesse agir durante décadas de maneira instrumental e ainda assim prosperar externamente. Não havia lei observável que obrigasse a vida a produzir uma cena de compensação. O retorno talvez fosse mais íntimo: quem transforma todas as relações em instrumentos pode tornar-se extraordinariamente competente em obter coisas e progressivamente incapaz de reconhecer aquilo que não pode ser obtido. Quem utiliza confiança como recurso pode terminar vivendo num mundo em que toda confiança parece estratégia. Esse destino não exige nenhum deus. É produzido pela repetição. Mas a mesma lei precisava incluir Isidora.
Se ela transformasse compreensão em tolerância ilimitada, também fabricaria um hábito. Se entregasse continuamente a outro o poder de confirmar a realidade de sua própria experiência, construiria um modo de existência dependente de tribunais externos. A neutralidade do karma, se a palavra ainda tivesse valor, residia precisamente em não escolher lado. Cada repetição participa da construção daquele que repete.
Foi então que o mensageiro antigo, aquele que gregos chamariam Hermes e egípcios aproximariam de Thoth, regressou aos pensamentos de Isidora. Durante anos ela se fascinara pela frase que relacionava o alto e o baixo e, como tantos antes dela, sentira a tentação de transformá-la numa chave universal. Agora a compreendia com mais reserva. Correspondência não precisava significar identidade. Uma árvore não era uma alma; um metal não era uma experiência; uma operação alquímica não era terapia. Contudo, padrões podiam atravessar linguagens sem que uma fosse prova literal da outra. A alquimia lhe oferecia justamente uma disciplina contra a espiritualidade preguiçosa. O chumbo não se tornava ouro porque alguém declarasse que tudo era luz. Era submetido a operações.
Por isso a frase “tudo precisava acontecer para que você aprendesse” começou a lhe parecer não apenas intelectualmente pobre, mas moralmente perigosa. Se o acontecimento era necessário, a escolha de quem o produziu diminuía. A crueldade transformava-se retrospectivamente em serviço. O ofensor tornava-se funcionário involuntário da evolução da pessoa ferida. Isidora recusou essa teologia. Thalia poderia ter escolhido a ética. Era importante que pudesse. A contingência preservava a responsabilidade.
Aquilo que acontecera não precisava possuir uma finalidade anterior para adquirir uma utilização posterior. Essa foi uma das ideias que mais profundamente modificaram Isidora. A experiência não precisava ter sido enviada para transformar-se em conhecimento. Um acidente não precisa ser planejado para produzir significado. Uma ferida pode ser transmutada sem ser santificada.
O sentido pode nascer depois. Esse pensamento a conduziu finalmente de volta à matéria.
Percebeu que, em alguns momentos, utilizara sistemas simbólicos precisamente para evitar a simplicidade de certas realidades. Interpretara onde deveria apenas discernir; analisara onde deveria estabelecer uma consequência; procurara motivações quando os próprios acontecimentos já haviam produzido informação suficiente. Foi então que Malkuth lhe pareceu extraordinariamente belo.
Quando criança, subira nas árvores para afastar-se do chão. Agora compreendia que toda árvore, inclusive a cabalística, precisava terminar nele. O Reino não era uma forma inferior do espírito. Era sua prova.
Uma ideia sobre limites que nunca chegasse à matéria não constituía um limite. Uma filosofia sobre responsabilidade que desaparecesse diante da primeira situação concreta talvez fosse apenas ornamentação intelectual. Existiam perguntas para Jung e perguntas para o Direito; perguntas para Hermes e outras cuja resposta dependia de fatos, prazos, fronteiras e consequências. Confundir os planos não os tornava mais profundos.
Pouco depois, durante uma meditação, Isidora fez soar a velha tigela de bronze. O primeiro som era denso e claramente metálico; depois começou a perder contorno até permanecer apenas como uma presença difícil de localizar. Ela escutou até não conseguir determinar o segundo exato em que o som deixou de existir. Pensou que certas relações que na verdade não foram relações talvez terminassem assim.
Há um acontecimento reconhecível, depois ecos, hábitos, discussões imaginárias, perguntas que continuam respondendo a alguém que já não está presente. O vínculo termina antes de deixar de vibrar. Quando abriu os olhos, uma corrente de ar deslocara a pluma. Ela caíra sobre uma das cartas do baralho de Thoth que permanecia no chão. Isidora não se moveu imediatamente. Também não perguntou se era um sinal.
Esse reflexo ainda existia nela, mas agora convivia com outra possibilidade. A pluma poderia simplesmente ter caído. A carta poderia estar simplesmente naquele lugar. E ainda assim a combinação poderia produzir significado.
Talvez uma coincidência não precise ser enviada para tornar-se significativa.
Esse pensamento lhe pareceu mais sofisticado do que escolher entre superstição e desprezo. A pluma trouxe de volta Maat.
Isidora pensou na antiga pesagem do coração e percebeu algo que durante anos lhe escapara: a cena não era verdadeiramente sobre o castigo do inimigo. Era sobre aquilo que cada consciência carregava até o momento da pesagem. Ela passara tempo demais perguntando pelo peso futuro de Thalia. O que determinadas escolhas fariam com ela? Que espécie de pessoa produziria? Que consequências encontraria? A pergunta não era ilegítima. Mas ainda era um fio.
Compreendeu que libertar-se não exigia responder a essas questões; exigia aceitar que talvez jamais soubesse.
Ressentimento pesa porque exige manutenção. Orgulho pesa quando transforma a ferida numa identidade que precisa continuamente de alimento. A necessidade de reconhecimento pesa quando entrega à consciência alheia a autoridade de determinar se aquilo que sentimos foi real. Mas também pesa aquilo que deixamos sem proteção dentro de nós enquanto permanecemos excessivamente ocupados interpretando o outro.
Naqueles mesmos dias, circulavam novamente referências ao chamado portal do oitavo dia do oitavo mês, associações contemporâneas entre o Sol, Leão e Sirius que Isidora conhecia suficientemente para não confundi-las com astronomia. Ainda assim, não sentia necessidade de ridicularizar a linguagem. Durante milênios, os homens haviam olhado para o céu e construído relações entre movimentos celestes e movimentos interiores. Sirius marcara ciclos para povos do Nilo. O Sol recebera nomes, rostos, templos. Rá, Amon-Rá, Sekhmet haviam permitido pensar criação, poder, destruição, doença, cura e força por meio de imagens.
Talvez não houvesse portal algum no espaço. Mas símbolos também abrem portas.A diferença estava em saber em que lugar elas se abriam.
Sekhmet lhe ocorreu então não como uma deusa enviada contra alguém, mas como uma figura para pensar força. O mesmo calor que sustenta pode consumir. A mesma ferocidade que destrói pode proteger. Outra vez Isidora encontrava a mesma estrutura do sonho: água, lâmina, Sol. Nenhuma força possuía valor independentemente de sua relação com medida, direção e consciência. Tiferet retornava sem ser chamado pelo nome.
Foi nesse momento que amor fati perdeu sua aparência de submissão.
Isidora jamais aceitaria a interpretação segundo a qual deveria agradecer pelo sofrimento para demonstrar evolução. Amar o destino não podia significar declarar boa a crueldade ou necessária a traição. Isso seria apenas violência retrospectiva contra a própria percepção. O destino começava onde a reversibilidade terminava. Aquilo acontecera. Essa era a parte sobre a qual já não possuía poder. Mas o acontecimento não continha, por si só, a forma final daquilo que ela se tornaria. A operação ainda estava aberta. Era isso que Isidora podia amar: não o golpe, mas a liberdade que permanecia depois dele.
A traição tampouco elevava automaticamente ninguém. O sofrimento não é uma iniciação apenas porque dói. Pode produzir lucidez ou amargura, ampliação ou estreitamento, repetição ou transformação. A matéria bruta não escolhe o resultado. O alquimista é que precisa trabalhar. Foi assim que Thalia gradualmente deixou de ocupar a posição central da história.
Talvez nunca tivesse existido entre ambas aquilo que Isidora, em determinado momento, chamara de relação. Talvez tivessem existido encontros, desejos, projeções, momentos de afeto verdadeiro, tentativas de construir continuidade sobre estruturas que jamais adquiriram a mesma realidade para ambas. O fato de uma experiência possuir profundidade para uma pessoa não obriga a outra a tê-la vivido na mesma dimensão.
Isso também fazia parte do luto: reconhecer que duas pessoas podem ter compartilhado acontecimentos sem ter compartilhado a mesma história.
Thalia ainda era jovem. Isidora não transformava essa juventude em indulgência, tampouco em condenação. Significava apenas que inúmeras escolhas ainda participariam da construção de seu caráter. Talvez encontrasse ambientes em que beleza e encanto não substituíssem consistência. Talvez conhecesse pessoas diante das quais estratégias antigas não funcionariam. Talvez aprendesse. Talvez não.
A verdadeira separação ocorreu quando essas hipóteses deixaram de ser necessárias.
Não no dia em que cessaram as palavras, porque palavras podem terminar muito antes ou muito depois de uma relação. Não quando determinadas pendências encontraram finalmente o território da matéria a que pertenciam. Nem mesmo quando Isidora compreendeu intelectualmente aquilo que vivera.
A separação aconteceu quando o futuro moral de Thalia deixou de funcionar como apêndice da paz de Isidora.
Naquela noite, ela guardou a pluma numa pequena caixa de prata que atravessara gerações de sua família. A peça pertencera a uma mulher que, no século XIX, deixara as terras do baixo Reno e atravessara o oceano em direção ao sul. Isidora sabia pouco sobre ela. Não conhecia seus pensamentos, não sabia aquilo que deixara para trás, quais medos carregara no navio ou que ideia possuía do lugar para onde ia. Restara a caixa. Às vezes uma existência inteira sobrevive numa quantidade ridiculamente pequena de matéria.
Isidora colocou a pluma dentro dela, ao lado de alguns objetos familiares, e fechou a tampa. A tigela permaneceu vazia sobre a escrivaninha.
Por alguns dias, pensou que o vazio significasse ter superado o julgamento. Depois abandonou essa interpretação também. Discernir era necessário. A recusa em julgar qualquer ato podia ser apenas outra forma de abandonar a própria capacidade moral.
Não era preciso transformar todas as diferenças em equivalência. Uma pessoa podia violar uma confiança e outra apenas ter demorado a compreender que ela fora violada. Essas duas coisas não possuíam o mesmo peso. A balança de Maat jamais lhe parecera tão importante precisamente porque uma balança não existe para fingir simetria. Existe para reconhecer diferença de peso.
Isidora começou então a formular uma concepção de karma que não necessitava nem de vingança nem de certeza metafísica. Talvez houvesse muito mais no universo do que seus sentidos e sua razão conseguiam captar; seria arrogante concluir que aquilo que não podia provar era necessariamente impossível. Mas seria igualmente arrogante transformar sua intuição em lei universal apenas porque lhe oferecia conforto.
Podia permanecer entre as duas coisas, talvez houvesse mistério, talvez houvesse apenas causalidade, formação e consequência. Em ambos os casos, uma verdade lhe parecia suficientemente forte: cada escolha participava da arquitetura daquele que escolhia.
Thalia construiria a sua.
Isidora, a própria.
A diferença era que Isidora já não precisava observar a construção da outra para continuar a sua.
Antes de dormir, escreveu algumas linhas num caderno. Não as chamou de conclusão. Conclusões a incomodavam porque davam aos pensamentos uma estabilidade que raramente possuíam. Escreveu apenas que talvez justiça não fosse uma propriedade secreta do universo, mas uma tarefa humana diante de um universo cuja ordem moral permanecia desconhecida; que um acontecimento não precisava possuir intenção para adquirir significado; que compreender a causa de uma ação não eliminava sua responsabilidade; que a sombra não anulava a luz, apenas impedia que ela se confundisse com pureza; e que nenhuma transformação digna desse nome exigia que chamássemos de bênção aquilo que havia sido destrutivo.
Depois olhou para a tigela de bronze comprada em al-Andalus, aquela provável imitação de uma tradição que talvez jamais tivesse tocado.
Sorriu diante da contradição. Um objeto possivelmente falso lhe ensinara, durante anos, alguma coisa verdadeira.
A pluma que não pesava quase nada havia se tornado uma medida.
Uma cidade destruída lhe ensinara que preservação não justifica catástrofe.
Uma árvore imaginada como nave lhe ensinara que subir não é sempre transcender e que algumas vezes a sabedoria consiste em retornar ao chão.
Uma mulher que Isidora acreditara poder ajudar a florescer acabara obrigando-a a perguntar o que, nela própria, precisava ser podado.
E nenhuma dessas correspondências provava que o universo estivesse escrevendo para ela.
Talvez esse fosse finalmente o ponto.
O mistério não diminuía quando Isidora deixava de exigir que tudo fosse mensagem. Pelo contrário, tornava-se maior, porque o universo podia permanecer silencioso e, ainda assim, a consciência humana conservar a extraordinária capacidade de recolher fragmentos, aproximá-los, submetê-los ao fogo do pensamento e produzir uma forma que antes não existia.
Foi então que compreendeu por que durante tantos anos se sentira atraída pela antiga imagem de Ísis recolhendo os pedaços dispersos.Não se tratava de reconstruir aquilo que havia sido exatamente como antes. Aquilo seria impossível.
A verdadeira arte estava em saber quais fragmentos ainda pertenciam à obra, quais deveriam permanecer enterrados e quais, depois de atravessarem suficiente consciência, poderiam adquirir uma configuração que nenhum deles possuíra antes da ruptura.
Isidora apagou a luz. Sobre a escrivaninha, o bronze permaneceu imóvel. Na caixa de prata, a pluma também. Nenhum sinal apareceu. Nenhuma justiça desceu do céu.
E, pela primeira vez, a ausência não lhe pareceu abandono, mas espaço.
Por Liorah Zahav