Os dois corpos perdidos de Cleópatra

Propaganda romana, poder, erotização e a arqueologia de uma mulher soterrada pela própria lenda

Há poucas mulheres mortas há mais de dois mil anos cujo rosto acreditamos conhecer tão bem quanto o de Cleópatra. Essa familiaridade, entretanto, talvez constitua o primeiro problema para qualquer tentativa de aproximação histórica. Cleópatra VII Filopátor tornou-se tão abundantemente representada que a profusão de imagens produz a ilusão de abundância documental. Pensamos conhecê-la porque a reconhecemos. Há uma Cleópatra de Shakespeare, uma Cleópatra do orientalismo europeu, uma de Hollywood, uma de Elizabeth Taylor, uma multiplicidade de rainhas reconstruídas pela pintura, pela ópera, pela moda, pela publicidade e, mais recentemente, pelas tentativas contemporâneas de recuperar uma mulher supostamente apagada pela misoginia da Antiguidade. Entre todas elas, porém, encontra-se uma personagem histórica cuja interioridade permanece consideravelmente mais inacessível.

Cleópatra deixou moedas, inscrições, representações, documentos administrativos e vestígios de um reinado de mais de vinte anos. O Egito ptolemaico, graças à preservação excepcional de papiros, inscrições e materiais arqueológicos, é uma das sociedades do mundo helenístico sobre as quais possuímos documentação particularmente abundante. O problema não é, portanto, uma ausência absoluta de Cleópatra, mas a natureza desigual das evidências que sobreviveram. Podemos recuperar aspectos de sua administração, suas estratégias dinásticas, sua titulatura, sua iconografia e os acontecimentos políticos nos quais esteve envolvida com muito mais segurança do que podemos reconstruir suas intenções íntimas, seu temperamento ou a verdadeira natureza de suas relações pessoais.

Grande parte da Cleópatra psicológica que chegou até nós atravessou textos gregos e romanos escritos depois de sua derrota. Plutarco nasceu aproximadamente oitenta anos depois dela e escreveu a Vida de Antônio mais de um século após os acontecimentos que descreveu. Dião Cássio nasceu ainda mais tarde. Mesmo quando esses autores preservam tradições mais antigas ou informações de fontes hoje perdidas, não podemos lê-los como testemunhas transparentes. Entre o acontecimento e o relato existe não somente distância cronológica, mas também o resultado de uma guerra cuja versão vitoriosa se tornou parte da fundação ideológica do principado augustano.

Tal dificuldade cria um paradoxo peculiar. Talvez saibamos suficientemente sobre a soberana para compreender a extensão de seu poder, mas não o bastante para impedir que sucessivas épocas preencham os espaços vazios com aquilo que desejam encontrar nela.

É nesse sentido que Cleópatra parece possuir dois corpos perdidos. O primeiro é literal. Seu túmulo permanece desconhecido e nenhum conjunto de restos humanos foi identificado de maneira convincente como pertencente a ela ou a Marco Antônio. O segundo desaparecimento é menos material e provavelmente mais difícil de reverter. A mulher histórica encontra-se parcialmente soterrada sob uma estratigrafia de representações, propagandas e fantasias produzidas por aqueles que a derrotaram, pelos que posteriormente escreveram sobre ela e, inevitavelmente, por nós, que continuamos tentando reconstruí-la.

Uma rainha entre mundos

Cleópatra nasceu em 69 a.C. numa dinastia que governava o Egito desde o desmembramento do império de Alexandre. Os Ptolemeus concebiam-se dinasticamente como macedônios, descendentes de Ptolemeu I, general de Alexandre, embora governassem o Egito por meio de uma monarquia que precisava simultaneamente operar dentro das linguagens políticas do mundo helenístico e da antiga tradição faraônica. A historiografia contemporânea por vezes descreve essa estrutura como uma monarquia de dupla face, capaz de articular diferentes repertórios de legitimidade conforme o público, o espaço e a finalidade política.

Perguntar simplesmente se Cleópatra era “grega ou egípcia” pode, portanto, impor ao século I a.C. categorias identitárias posteriores. Dinasticamente, pertencia a uma casa greco-macedônica; politicamente, era rainha e faraó do Egito; culturalmente, formou-se em Alexandria, cidade cuja própria identidade resultava da confluência de tradições mediterrânicas. A identidade de sua mãe permanece discutida. O Oxford Classical Dictionary admite tanto a possibilidade de que fosse filha de Cleópatra VI Trifena quanto a de uma mulher da elite egípcia. A incerteza genealógica, por si só, deveria recomendar prudência diante das reconstruções contemporâneas excessivamente categóricas de sua identidade étnica.

Muito mais revelador do que tentar decidir a qual categoria moderna Cleópatra “pertencia” é observar como ela escolheu governar e representar-se. Pesquisas recentes sobre sua iconografia mostram que sua autorrepresentação variava segundo o contexto. Em moedas destinadas a circuitos helenísticos, aparece como soberana dentro das convenções visuais da realeza grega; em monumentos e ambientes religiosos egípcios, apresenta-se de acordo com linguagens faraônicas, vinculando-se fortemente a Ísis e a outros cultos locais. Essa flexibilidade não precisa ser interpretada como inconsistência identitária. Pode ser entendida como uma forma particularmente sofisticada de realeza ptolemaica.

É nesse mesmo contexto que o célebre multilinguismo de Cleópatra adquire importância maior do que a curiosidade frequentemente repetida de que ela “falava nove idiomas”. Plutarco não nos fornece esse número. Ele afirma que Cleópatra raramente precisava de intérpretes ao responder a interlocutores de diversos povos, entre eles etíopes, trogloditas, hebreus, árabes, sírios, medos e partos, acrescentando que conhecia ainda outras línguas. Menciona também que, diferentemente dos Ptolemeus anteriores, ela havia aprendido a língua egípcia.

O elemento relevante não é produzir uma contagem exata, impossível de demonstrar a partir desse relato, mas compreender as implicações políticas dessa capacidade. Para uma soberana de um reino inserido num sistema de diplomacia mediterrânica e oriental extremamente complexo, comunicar-se sem a intermediação constante de tradutores significava obter um acesso singular ao interlocutor. O domínio da linguagem oferece mais do que eficiência verbal. Permite perceber hesitações, modular intimidade, construir deferência ou proximidade, controlar nuances e reduzir a dependência de mediadores. O que posteriormente se converteu em um dado pitoresco da biografia de Cleópatra provavelmente deve ser compreendido também como parte de seu repertório diplomático.

Essa observação se torna particularmente importante porque o mesmo Plutarco que participa da construção literária de uma Cleópatra sedutora preserva informações que complicam profundamente essa caricatura. Ele afirma que sua beleza, considerada isoladamente, não era incomparável nem suficiente para impressionar imediatamente quem a visse. O efeito produzido pela rainha estaria muito mais associado à conversação, à persuasão, à presença e à qualidade de sua voz.

Há algo quase irônico nisso. Uma das fontes fundamentais para a tradição que erotizou Cleópatra também nos diz que a excepcionalidade de sua presença não podia ser reduzida ao rosto.

Tarso e o problema da sedução

Nenhuma cena talvez tenha contribuído tanto para a construção da Cleópatra sedutora quanto sua chegada a Tarso, em 41 a.C., para encontrar Marco Antônio. Também aqui a versão de Plutarco deve ser lida com cautela, pois estamos diante de uma narrativa elaborada muito posteriormente e evidentemente construída com grande consciência literária. Ainda assim, os detalhes que ele preserva são extraordinários.

Antônio havia enviado sucessivas convocações para que Cleópatra comparecesse à Cilícia e respondesse a acusações relativas ao apoio fornecido a Cássio. Ela não se precipitou em atender. Quando finalmente subiu o rio Cidno, a embarcação possuía popa dourada, velas púrpuras e remos de prata que acompanhavam o ritmo de flautas, pífaros e liras. Cleópatra aparecia sob um dossel adornado de ouro, caracterizada visualmente como Afrodite. Jovens foram figurados como Eros; mulheres de sua comitiva, como Nereidas e Graças. Algumas estavam junto ao leme e às cordas de manejo das velas. Os famosos perfumes, frequentemente transformados em “cordas perfumadas” nas versões modernas da história, provinham, segundo Plutarco, das inúmeras oferendas de incenso, cujo odor se disseminava pelas margens do rio. A encenação foi suficientemente eficaz para que a multidão abandonasse progressivamente o espaço onde Antônio se encontrava e corresse para contemplar Cleópatra. O rumor difundido na cidade interpretava a cena mitologicamente como a chegada de Afrodite para encontrar Dioniso.

É difícil negar o componente de sedução desse acontecimento. Seria igualmente empobrecedor reduzi-lo a ele.

O encontro de Tarso permite observar uma dimensão do poder que a historiografia política excessivamente racionalizada por vezes trata como periférica. Poder não se comunica somente por decretos, tropas, negociações e recursos econômicos. Monarquias antigas compreenderam profundamente a dimensão sensorial da autoridade. Vestuário, arquitetura, procissões, sons, aromas, cores, metais preciosos, iconografia religiosa, coreografia corporal e controle espacial participavam da fabricação pública da soberania.

Cleópatra parece ter chegado a Tarso controlando exatamente essas variáveis. Controlou o tempo, pois não respondeu imediatamente às convocações; controlou o espaço, porque transformou o rio em palco; controlou o regime visual, apresentando-se mediante uma identificação divina compreensível ao mundo helenístico; controlou sons e odores e, sobretudo, reorganizou momentaneamente a relação de autoridade entre os dois participantes do encontro. Antônio a convocara. Ao chegar, foi ela quem se tornou o centro do espetáculo. Quando ele a convidou para jantar, Cleópatra considerou mais apropriado que ele fosse até ela, e Antônio aceitou.

Uma leitura exclusivamente romântica da cena perde precisamente aquilo que a torna politicamente fascinante. A sedução não precisa ser excluída da análise para que a inteligência estratégica de Cleópatra seja reconhecida. É possível que erotismo, interesse diplomático, cálculo político, prazer pessoal e autorrepresentação religiosa tenham coexistido. A nossa dificuldade talvez esteja em imaginar que essas dimensões precisem ser mutuamente excludentes.

Há uma tendência moderna de pensar estratégia como o oposto de emoção, como se uma ação deixasse de ser politicamente calculada assim que adquirisse também uma dimensão afetiva ou sexual. Esse dualismo provavelmente diz mais sobre nossas categorias do que sobre a política dinástica antiga. Casamento, sexualidade, reprodução, sucessão e aliança eram componentes constitutivos do poder aristocrático e monárquico. Homens e mulheres de famílias governantes utilizavam relações matrimoniais e familiares para construir alianças e legitimar sucessões. O erro não está em reconhecer que Cleópatra poderia mobilizar sua sexualidade; está em transformar essa possibilidade na explicação suficiente de sua trajetória.

No caso de Tarso, a própria escala da mise-en-scène sugere algo que ultrapassa uma tentativa privada de fascinar Antônio. O espetáculo possuía público. Sua eficácia dependia de ser visto, comentado e convertido em narrativa. A rainha não parecia apenas desejar impressionar um homem; apresentava uma forma de soberania.

Uma descrição contemporânea da pesquisa em Taposiris Magna recuperou justamente essa dimensão. Sara E. Cole, do Getty Museum, observa que as aparições marítimas de Cleópatra eram cuidadosamente orquestradas e que a chegada dourada a Tarso deve ser compreendida como parte de uma estratégia de comunicação ideológica.

Talvez seja mais preciso, portanto, falar em teatralidade política do que em sedução isolada. Isso não torna o episódio menos sensual. Torna-o historicamente mais complexo.

Por que Roma precisava de uma sedutora

A transformação de Cleópatra em ameaça sexual adquire sentido mais preciso quando abandonamos a explicação genérica de que Roma era uma sociedade patriarcal e observamos a utilidade política específica dessa representação.

No final da década de 30 a.C., Otaviano e Marco Antônio haviam se tornado os principais polos de uma luta pela hegemonia sobre o mundo romano. É importante lembrar que ainda estamos formalmente na República tardia. Otaviano somente receberia o título de Augusto em 27 a.C., depois da derrota e da morte de Antônio e Cleópatra. Tratar o conflito simplesmente como uma guerra do “Império Romano contra o Egito” apaga justamente o problema político que Otaviano precisava resolver.

Uma guerra declarada contra Antônio era mais uma guerra entre romanos depois de décadas de violência civil.

Uma guerra contra Cleópatra podia ser apresentada como outra coisa.

Dião Cássio preserva de forma particularmente explícita essa operação. A declaração formal de guerra foi dirigida contra Cleópatra. Antônio não recebeu inicialmente a mesma declaração, apesar de todos saberem que o verdadeiro conflito também era contra ele. O efeito narrativo era politicamente conveniente: Antônio poderia aparecer como um romano que escolhera voluntariamente combater sua pátria ao lado de uma mulher estrangeira.

A construção do inimigo passa então a operar sobre diversos registros simultaneamente. Cleópatra era mulher, monarca, estrangeira, associada ao Egito e às monarquias helenísticas, senhora de enorme riqueza e participante de formas de representação religiosa facilmente apresentáveis ao público romano como excesso oriental. A crise política interna podia ser reorganizada simbolicamente como confronto entre Roma e uma potência externa.

A literatura do período augustano permite observar essa transformação. Na célebre ode 1.37, Horácio inicialmente constrói Cleópatra por meio de um vocabulário de ameaça, excesso e monstruosidade, chegando à expressão fatale monstrum. O poema, porém, é mais complexo do que simples propaganda: ao aproximar-se da morte da rainha, passa a reconhecer sua coragem e recusa em ser exibida como vencida. A própria ambivalência é reveladora. A inimiga precisava ser suficientemente monstruosa para engrandecer a vitória, mas sua dignidade diante da morte podia simultaneamente torná-la uma adversária à altura do triunfo romano.

A estrutura propagandística aparece ainda mais claramente quando Antônio desaparece parcialmente da cena. Estudos sobre a recepção literária de Actium observam que determinadas representações conseguem converter um confronto essencialmente romano em embate entre Roma e uma rainha estrangeira. Em Horácio, a ausência ou redução de Antônio é particularmente funcional: Cleópatra absorve a alteridade necessária para que uma guerra civil possa ser narrada como vitória nacional.

É nesse contexto que a sexualização se torna politicamente engenhosa.

Transformar Cleópatra em sedutora não significa negar inteiramente seu poder. Ao contrário, significa admitir que ela possuía uma influência excepcional, mas deslocar a origem dessa influência para um terreno no qual sua inteligência política podia ser minimizada. A narrativa reconhece o efeito e altera a explicação da causa.

Cleópatra podia, nessa versão, ser suficientemente poderosa para desviar Marco Antônio de Roma, ameaçar a ordem republicana e imaginar dominar o Mediterrâneo. Contudo, sua capacidade de produzir esses efeitos não precisava ser atribuída ao domínio da diplomacia, à administração de um reino extremamente rico, à inteligência retórica, ao conhecimento linguístico, à construção de alianças ou à manipulação consciente dos códigos da representação monárquica. Poderia ser atribuída ao encantamento, ao luxo, ao corpo e à sexualidade.

A operação é sofisticada justamente porque não torna a mulher impotente. Concede-lhe uma forma de poder que impede que seja plenamente reconhecida como agente político racional.

Dião Cássio reproduz essa lógica com particular intensidade ao apresentar Antônio como alguém praticamente enfeitiçado e subjugado por Cleópatra. A rainha aparece como a força capaz de corromper a identidade romana de um homem.

Existe também uma dimensão de gênero incontornável nessa construção. Uma soberana estrangeira exercendo autoridade própria podia ser assimilada simultaneamente a categorias romanas de desordem sexual, luxo oriental, monarquia e inversão das hierarquias de gênero. Não se trata apenas de afirmar que Roma era patriarcal, formulação verdadeira, mas excessivamente ampla para explicar um mecanismo histórico particular. A propaganda funcionava porque conjugava diversos temores e os condensava numa figura feminina.

Nesse sentido, talvez a pergunta mais fecunda não seja se Cleópatra utilizava ou não sedução. Provavelmente o fazia em determinadas circunstâncias, assim como utilizava linguagem, ritual, riqueza, diplomacia, descendência e espetáculo. A questão crítica é outra: por que, dentre tantos instrumentos de poder, foi a sedução que adquiriu tal capacidade de explicar retrospectivamente sua pessoa inteira?

Essa pergunta continua pertinente porque a tradição posterior conservou extraordinariamente bem a resposta augustana. A própria indústria cinematográfica frequentemente manteve a Cleópatra como mulher exótica, bela e sexualmente irresistível, mesmo quando pretendia celebrá-la. Estudos sobre suas representações hollywoodianas mostram como sua competência política frequentemente desaparece sob a permanência da figura da sex-siren.

O risco de corrigir uma caricatura produzindo outra

Há, contudo, um problema inverso. O esforço contemporâneo de recuperar Cleópatra da propaganda romana frequentemente produz uma nova simplificação. A sedutora manipuladora é substituída pela estrategista absolutamente racional, pela governante quase infalível ou pela feminista avant la lettre que enfrentou heroicamente um mundo masculino.

Essa reconstrução é mais simpática, mas não necessariamente mais histórica.

Não precisamos demonstrar que Cleópatra era intelectualmente superior a César ou Antônio para reconhecer sua inteligência. Tampouco precisamos transformá-la numa espécie de feminista moderna projetada retrospectivamente sobre o século I a.C. As estruturas sociais, jurídicas, dinásticas e conceituais que tornaram possível o feminismo moderno simplesmente não existiam da mesma maneira em seu mundo. Cleópatra defendia uma dinastia, uma monarquia e os interesses de seu reino e de seus descendentes. Sua condição de mulher numa ordem intensamente masculina torna sua trajetória excepcional, mas não converte automaticamente sua política numa luta consciente pela emancipação das mulheres.

Recusar a misoginia das fontes não exige fabricar uma santa secular.

Essa precaução é importante porque uma das formas mais sutis de retirar humanidade de uma personagem histórica é torná-la impecável. Cleópatra tomou decisões extraordinariamente eficazes e outras cuja eficácia continua discutida. Sobreviveu a conflitos dinásticos violentos, foi expulsa do poder e conseguiu recuperá-lo, estabeleceu relações com dois dos homens mais poderosos de Roma, preservou seu reino por duas décadas numa época em que as antigas monarquias helenísticas estavam sendo progressivamente absorvidas pela expansão romana, administrou territórios, reorganizou alianças e construiu uma política dinástica centrada também em seus filhos. Estudos da política ptolemaica sob seu reinado situam-na precisamente nesse esforço de recuperar e conservar o poder de uma monarquia que existia num Mediterrâneo cada vez mais dominado por Roma.

Também possuímos evidências concretas de administração que retiram Cleópatra do domínio abstrato da sedução. Uma inscrição de 41 a.C., por exemplo, preserva duas ordens emitidas durante seu reinado e de Cesarion relativas a interesses tributários de proprietários alexandrinos no Delta, evidência de uma monarquia operando sobre problemas fiscais e administrativos muito distantes das narrativas românticas pelas quais a rainha se tornou conhecida.

Isso não significa que toda decisão tenha sido brilhante. A política construída com Antônio terminou em derrota. Actium, em 31 a.C., modificou irreversivelmente a posição de ambos, e a subsequente conquista do Egito por Otaviano encerrou o reino ptolemaico. Algumas escolhas militares de Cleópatra e Antônio permanecerão debatidas, inclusive a decisão de travar a batalha naval. O próprio Plutarco, numa passagem claramente hostil mas ainda assim reveladora das controvérsias, atribui a Cleópatra influência sobre a escolha da estratégia marítima.

A reconstrução historicamente mais adulta talvez precise aceitar que uma pessoa pode ser extraordinariamente inteligente e ainda assim perder; pode compreender determinados jogos de poder e equivocar-se em outros; pode agir por cálculo numa ocasião e por afeto em outra; pode inclusive agir simultaneamente por ambos. Estratégia não significa onisciência.

Há nisso uma correção importante tanto à propaganda antiga quanto à apologética moderna. A primeira frequentemente transforma Cleópatra em desejo sem inteligência. A segunda corre o risco de transformá-la em inteligência sem contradição.

Ambas produzem personagens.

A primeira perda: o corpo

Depois de Actium, a história aproxima-se do problema arqueológico que continua aberto.

Antônio e Cleópatra regressaram ao Egito. Em 30 a.C., as forças de Otaviano chegaram a Alexandria. Antônio morreu após ferir-se com sua própria espada, segundo a tradição antiga, e Cleópatra morreu pouco depois, provavelmente por suicídio. O mecanismo exato de sua morte permanece incerto. A serpente tornou-se iconograficamente indissociável da rainha, mas Plutarco já conhecia versões concorrentes e admitia que não havia certeza sobre o que ocorrera.

Uma lenda moderna frequentemente repetida afirma que Cleópatra teria desejado que ninguém jamais encontrasse seu túmulo. Não conheço fundamento antigo seguro para essa afirmação. A tradição preservada por Plutarco aponta numa direção diferente: antes de morrer, Cleópatra teria enviado a Otaviano uma mensagem pedindo para ser enterrada junto de Antônio. Depois de sua morte, ele teria ordenado que ambos fossem sepultados juntos, com magnificência régia. Dião Cássio também registra que foram embalsamados e colocados no mesmo túmulo.

Isso produz um problema particularmente intrigante. As fontes antigas parecem acreditar que o túmulo existiu e que os corpos permaneceram juntos. O que não sabemos é onde exatamente ele estava e o que lhe aconteceu nos séculos seguintes.

A hipótese considerada mais provável por muitos arqueólogos continua relacionada a Alexandria. A cidade sofreu terremotos, subsidência e transformações costeiras; partes do antigo bairro real encontram-se hoje submersas no Mediterrâneo. A arqueologia subaquática vem revelando gradualmente um mundo que literalmente desapareceu sob as águas.

As pesquisas de Franck Goddio e do Institut Européen d’Archéologie Sous-Marine no antigo Portus Magnus constituem uma das vertentes mais fascinantes dessa investigação. Desde a década de 1990, equipes vêm mapeando e escavando estruturas submersas da Alexandria ptolemaica. Em 2025, resultados relativos à ilha real de Antirhodos permitiram reconstruir com muito mais clareza um templo de Ísis associado ao complexo palaciano. Os achados sugerem que o santuário esteve ligado aos cultos pessoais de Ptolemeu XII e Cleópatra VII, esta representada como Nea Isis Aphrodite. Damian Robinson, da Universidade de Oxford, descreveu o local como parte do epicentro do reinado de Cleópatra.

Nada disso demonstra que sua tumba esteja em Antirhodos ou em outra parte submersa de Alexandria. Demonstra, contudo, que a paisagem material na qual Cleópatra governava e construía sua representação religiosa está parcialmente debaixo do mar. Se o mausoléu pertencia ao distrito real, a perda física de partes consideráveis desse território oferece uma explicação arqueologicamente plausível para sua ausência.

A principal hipótese concorrente ganhou notoriedade através do trabalho de Kathleen Martínez em Taposiris Magna, aproximadamente cinquenta quilômetros a oeste de Alexandria. Martínez, originalmente advogada criminal dominicana e posteriormente arqueóloga, pesquisa o complexo desde 2005 e defende que Cleópatra, fortemente associada a Ísis, poderia ter escolhido para seu sepultamento um importante centro religioso conectado ao mito de Ísis e Osíris.

As escavações de Taposiris Magna são arqueologicamente significativas independentemente de Cleópatra estar ou não enterrada ali. A missão encontrou milhares de objetos, sepultamentos, cerâmica ptolemaica, moedas, algumas contendo a imagem da rainha, além de um túnel com cerca de 1,3 quilômetro em direção ao mar. Em 2025, uma investigação subaquática conduzida com Bob Ballard identificou estruturas monumentais, âncoras, ânforas e outros indícios de um antigo porto conectado à região, demonstrando que Taposiris possuía uma dimensão marítima muito mais importante do que anteriormente se imaginava.

É uma descoberta relevante.

Não é a descoberta do túmulo de Cleópatra.

Essa distinção precisa ser preservada, sobretudo num ambiente digital em que quase todo novo achado próximo a Taposiris é rapidamente convertido em manchete sobre uma tumba “prestes a ser encontrada”. Martínez interpreta os indícios de forma cumulativa: culto de Ísis, material do período ptolemaico, túneis, sepultamentos e agora um porto reforçariam sua hipótese de que o corpo pudesse ter sido transportado da Alexandria conquistada para um local escolhido secretamente. A própria pesquisadora apresenta essa reconstrução como sua interpretação. Outros arqueólogos continuam considerando Alexandria mais provável, e mesmo especialistas favoráveis à importância das escavações distinguem seu valor arqueológico da questão específica do sepultamento de Cleópatra.

Até o momento, portanto, a formulação intelectualmente responsável continua simples: não sabemos onde está Cleópatra.

A ignorância é, neste caso, mais interessante do que a falsa resolução.

A segunda perda: a mulher

O desaparecimento físico de Cleópatra produziu um terreno extraordinariamente fértil para outro tipo de arqueologia. Sem túmulo identificado, sem corpo, sem autobiografia e com grande parte de sua vida narrada por tradições hostis ou posteriores, cada época encontrou espaço para reconstruí-la.

A rainha romana e helenística transformou-se em ameaça oriental. A literatura a converteu em personagem trágica. Shakespeare, trabalhando em grande medida a partir de Plutarco, criou uma das figuras femininas mais poderosas de seu teatro. O orientalismo europeu multiplicou palácios, tecidos, joias, nudez, exotismo e sensualidade. O cinema, dispondo agora de movimento, cor, cenografia e estrelas, encontrou nela um objeto quase perfeito para a fabricação moderna do espetáculo.

É notável como a cena de Tarso sobrevive nesse processo. Talvez porque a própria Cleópatra, se aceitarmos que Plutarco preserva algo da natureza daquela encenação, já tivesse compreendido o princípio fundamental que as culturas posteriores utilizariam para representá-la: poder pode tornar-se imagem.

O problema é que uma imagem extraordinariamente bem-sucedida frequentemente apaga as condições que a produziram.

Ao longo dos séculos, a Cleópatra das velas púrpuras e dos perfumes tornou-se mais acessível do que a governante envolvida em tributação, sucessão, política territorial e administração econômica. A história amorosa tornou-se mais memorável do que a complexa tentativa de manter a autonomia de uma monarquia helenística num Mediterrâneo progressivamente dominado por Roma. O erotismo sobreviveu melhor do que a burocracia.

Talvez isso seja compreensível narrativamente. Poucas pessoas desejam uma ópera sobre política tributária ptolemaica. Entretanto, quando a seleção narrativa se cristaliza durante dois mil anos, começa a parecer descrição objetiva de uma personalidade.

O que chamamos de Cleópatra talvez seja, em parte, o sedimento desse processo de seleção.

Por essa razão, corrigir sua imagem exige mais do que adicionar qualificativos positivos. Não basta escrever que, além de bela, era inteligente; que, além de sedutora, era estrategista; que, além de amante, era rainha. Essas fórmulas ainda mantêm a personagem original no centro e apenas acrescentam atributos compensatórios.

Talvez seja necessário reformular a própria pergunta.

Por que começamos pelo corpo?

Por que César e Antônio aparecem tão frequentemente como grandes agentes históricos que também possuíam vidas amorosas, enquanto a vida amorosa de Cleópatra se torna frequentemente a chave explicativa de sua agência histórica?

Por que a identificação consciente com Afrodite ou Ísis é facilmente interpretada como sedução quando poderia ser analisada, simultaneamente, como teologia política?

Por que os perfumes de Tarso permanecem mais conhecidos do que sua habilidade linguística?

A resposta não pode ser reduzida a uma conspiração simples dos historiadores romanos. Há propaganda, mas há também estruturas culturais de gênero, preferência narrativa, tradição literária, orientalismo, indústria cultural e nossa própria fascinação contemporânea pela excepcionalidade feminina. Cada época acrescentou uma camada.

Inclusive a nossa.

Ao tentar recuperar Cleópatra, somos tentados a criá-la segundo nossas próprias necessidades. Queremos que seja independente, feminista, intelectualmente superior aos homens que a cercavam, sexualmente autônoma, politicamente visionária. Em outras palavras, desejamos que sobreviva ao julgamento de Roma e também ao nosso.

Mas uma investigação histórica não deveria exigir que os mortos satisfaçam nossos valores para que mereçam ser levados a sério.

Cleópatra não precisa ter sido feminista avant la lettre para que a dimensão misógina de sua recepção seja criticada, ou ter vencido para que sua capacidade política seja reconhecida. Não precisa ter utilizado o sexo apenas como estratégia para que sua inteligência permaneça intacta. Tampouco precisa ter amado Antônio sinceramente nem fingido amá-lo para caber numa narrativa coerente. Pode ter feito cálculos e cometido erros; ter desejado poder e afeto; ter manipulado e sido manipulada; ter criado imagens de si mesma com enorme inteligência e, ao mesmo tempo, perdido o controle sobre a imagem que permaneceria depois de sua morte.

Talvez seja precisamente esse o ponto em que a investigação se torna mais difícil.

A arqueologia procura um túmulo porque um túmulo, ao menos em princípio, pode ser localizado. A historiografia procura uma pessoa cuja restituição total é impossível.

Mesmo que amanhã uma câmara intacta fosse encontrada sob Alexandria ou Taposiris Magna e uma inscrição inequívoca identificasse Cleópatra VII e Marco Antônio, o primeiro desaparecimento estaria em grande medida resolvido. Teríamos restos humanos, objetos, arquitetura, inscrições, talvez informações extraordinárias sobre o ritual funerário e a maneira como a última rainha ptolemaica desejou apresentar-se diante da eternidade.

Ainda assim, o segundo corpo permaneceria mais difícil de exumar.

Continuaríamos lendo uma mulher através de Plutarco, Dião, Horácio, moedas, templos, papiros, lacunas e interpretações. Teríamos encontrado seu corpo sem recuperar inteiramente sua consciência.

Talvez essa seja uma limitação que toda escrita histórica precisa admitir. O passado não é um objeto intacto enterrado sob camadas de terra, esperando que o pesquisador correto o descubra. A evidência sobrevive de maneira irregular. Algumas vozes se preservam, outras desaparecem; os vencedores possuem maiores condições de estabelecer narrativas, mas nem sequer as narrativas dos vencedores são homogêneas. O historiador trabalha com fragmentos, e a inteligência do trabalho não consiste em fingir que as ausências deixaram de existir.

Cleópatra é uma personagem particularmente apropriada para pensar esse problema porque seu excesso de visibilidade encobre uma ausência. Quanto mais foi representada, mais difícil talvez tenha se tornado perceber a distância entre representação e pessoa.

A mulher que conhecemos chega perfumada, vestida de púrpura, deitada sob ouro, transformada em deusa e cercada por uma iconografia que ela própria possivelmente ajudou a construir. Depois chegam Roma, Augusto, Horácio, Plutarco, Shakespeare, os orientalistas, Hollywood e nós. Cada um encontra nela alguma coisa que deseja preservar.

Talvez a crítica histórica comece quando resistimos ao desejo de produzir a Cleópatra definitiva.

Seus dois corpos continuam, de maneiras diferentes, perdidos. Um pode estar sob a água, sob uma cidade moderna, sob as ruínas de um templo ou em algum lugar que ainda não aprendemos a procurar. O outro encontra-se disperso entre documentos, imagens e discursos que jamais poderão ser completamente separados da história de quem os produziu.

Procurá-la exige, portanto, duas escavações. Uma ocorre no solo e no Mediterrâneo. A outra precisa ocorrer dentro da própria narrativa ocidental que nos ensinou a acreditar que já sabíamos quem ela era.

Talvez um dia encontremos a tumba.

A mulher exigirá escavação por muito mais tempo.

Liorah Zahav

Fontes e leituras

Fontes antigas

Plutarco. Vida de Antônio. É a fonte literária mais importante para a narrativa da relação entre Cleópatra e Marco Antônio, incluindo Tarso, sua conversação, multilinguismo, os últimos dias em Alexandria e a tradição de que pediu para ser sepultada com Antônio. Deve ser lido criticamente, considerando a distância temporal entre Plutarco e os acontecimentos.

Dião Cássio. História Romana, livros 50 e 51. Fundamental para compreender a transformação política da guerra contra Antônio numa declaração formal contra Cleópatra e para a tradição sobre o sepultamento conjunto. Sua linguagem sobre a rainha é também excelente material para estudar a construção posterior de sua influência como encantamento e submissão masculina.

Horácio. Odes 1.37. Documento essencial da recepção quase contemporânea da derrota de Cleópatra. O poema combina vituperação política com um reconhecimento posterior de sua coragem diante da morte, ambivalência que merece ser analisada em vez de reduzida a propaganda unilateral.

Historiografia

Roller, Duane W. Cleopatra: A Biography. Oxford University Press, 2010. Uma das melhores introduções acadêmicas modernas à Cleópatra histórica. Roller procura reconstruir a soberana a partir da documentação disponível, com atenção especial à política dinástica, administração, cultura e diplomacia.

Ashton, Sally-Ann. Cleopatra and Egypt. Wiley-Blackwell, 2008. Especialmente útil para iconografia, cultura material e a maneira como Cleópatra se apresentou dentro dos repertórios visuais grego e egípcio.

Jones, Prudence J. Cleopatra: A Sourcebook. University of Oklahoma Press, 2006. Reúne fontes antigas e materiais sobre a longa história de interpretação de Cleópatra, sendo particularmente útil para distinguir evidência histórica e recepção posterior.

Bingen, Jean. Hellenistic Egypt: Monarchy, Society, Economy, Culture. Editado por Roger S. Bagnall. Os capítulos dedicados a Cleópatra são importantes para compreender sua política dinástica, titulatura, autorrepresentação e esforço de restaurar a posição do reino ptolemaico em um mundo progressivamente dominado por Roma.

Fischer-Bovet, Christelle. “Cleopatra VII, 69–30 BCE”. Oxford Classical Dictionary. Síntese acadêmica atualizada sobre reinado, genealogia, documentação e contexto político da rainha.

Imagem, propaganda e recepção

Luce, J. V. “Cleopatra as Fatale Monstrum (Horace, Carm. 1.37.21)”. The Classical Quarterly. Um estudo clássico sobre a ambiguidade do retrato de Cleópatra na ode de Horácio e sobre a passagem da demonização à admiração por sua coragem.

Llewellyn-Jones, Lloyd. “‘An Almost All Greek Thing’: Cleopatra VII and Hollywood Imagination”. Útil para acompanhar a transformação moderna da soberana em figura cinematográfica exótica e sexualizada.

Arqueologia contemporânea

Institut Européen d’Archéologie Sous-Marine / Franck Goddio. As pesquisas no antigo porto de Alexandria e em Antirhodos vêm reconstruindo progressivamente o complexo palaciano e religioso submerso associado ao período ptolemaico. Os resultados recentes sobre o templo de Ísis são particularmente relevantes para compreender o espaço político e religioso de Cleópatra, embora não constituam evidência da localização de sua tumba.

Kathleen Martínez e a missão de Taposiris Magna. As escavações produziram descobertas arqueológicas importantes, entre elas túneis, sepultamentos, material ptolemaico, moedas e, mais recentemente, estruturas interpretadas como um antigo porto submerso. A hipótese de que Cleópatra esteja enterrada no local continua sem comprovação arqueológica direta.

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