Frieda Harris, a geometria do Tarot de Thoth e uma hipótese sobre a alquimia da colaboração
Há algum tempo, enquanto estudava o Tarot de Thoth, uma pergunta começou a me incomodar. Talvez porque certas perguntas surjam precisamente quando uma explicação se torna fácil demais.
Nós o chamamos de Tarot de Crowley. Nas lojas, nos livros, nas conversas sobre ocultismo, o objeto permanece gravitando ao redor de Aleister Crowley. Seu sistema, suas correspondências, sua Thelema, sua cosmologia. Frieda Harris costuma surgir posteriormente, depois de uma vírgula: illustrated by Lady Frieda Harris.
Mas o que acontece quando retiramos a artista dessa posição secundária e a colocamos novamente diante das pinturas?
Porque Crowley não pintou nenhuma delas.
E Frieda Harris não entrou naquele projeto desprovida de uma história espiritual, estética e intelectual própria.
É justamente nesse intervalo – entre a teoria de um homem e a mão de uma mulher que deveria torná-la visível – que comecei a suspeitar da existência de outro Tarot.
Antes de Crowley, havia Harris
Marguerite Frieda Harris nasceu em 1877 e já tinha sessenta anos quando encontrou Aleister Crowley em Londres, em 1937. A pesquisa de Deja Whitehouse sobre sua trajetória, baseada extensamente em diários, correspondência e documentos arquivísticos, mostra uma mulher que já havia atravessado diferentes ambientes espirituais antes dessa colaboração. Christian Science aparece documentada em sua história; há também interesses por Teosofia, Antroposofia, mitologia e participação maçônica.
Esse detalhe modifica a cena.
Não temos um mestre ocultista oferecendo uma cosmologia pronta a uma ilustradora intelectualmente neutra. Temos o encontro entre duas biografias esotéricas.
Harris viria posteriormente a tornar-se aluna mágica de Crowley e a participar de suas ordens, incluindo a O.T.O. e a A∴A∴. Em maio de 1938, sua filiação à O.T.O. foi reconhecida levando em conta graus que já possuía na Co-Masonry.
Isso torna ainda mais inadequada uma oposição simples entre “Harris antroposófica” e “Crowley thelemita”. Ela não permaneceu do lado de fora do universo dele.
Mas tampouco havia nascido dentro dele.
E essa diferença é essencial.
A conexão Steiner
Foi aqui que minha pergunta inicial começou a ganhar uma direção inesperada.
Por volta de 1937–38, praticamente no momento em que o projeto do Tarot começava a tomar forma, Harris estudava geometria sintética projetiva no Rudolf Steiner House, em Londres, com George Adams e Olive Whicher. Whitehouse considera sua relação com a Antroposofia e seus estudos geométricos parte relevante de seu desenvolvimento artístico.
É importante introduzir uma distinção antes que o fascínio destrua a precisão.
A geometria projetiva não é uma invenção de Rudolf Steiner e tampouco uma modalidade de “matemática oculta”. É uma disciplina matemática com história própria. George Adams trabalhou com geometria projetiva e, juntamente com Whicher, procurou interpretá-la e empregá-la dentro de uma investigação antroposófica sobre espaço, transformação, morfologia e natureza.
É essa versão culturalmente situada da geometria que nos interessa.
Em vez de um espaço constituído apenas por objetos sólidos e posições estáticas, aquele ambiente intelectual estava fascinado por polaridades: ponto e plano, centro e periferia, espaço e aquilo que Adams posteriormente chamaria de counter-space. A geometria oferecia uma linguagem para pensar relações e transformações.
E Frieda Harris estava estudando isso justamente quando começava a construir um dos baralhos visualmente mais dinâmicos do século XX.
Coincidência? Talvez.
Influência? Possivelmente.
Prova? Ainda não.
É precisamente aí que a investigação se torna interessante.
Crowley precisava de uma artista. Encontrou uma interlocutora.
A história da criação do Thoth também é mais recíproca do que uma palavra como “illustrator” deixa imaginar.
Harris e Crowley inicialmente imaginaram algo muito menos gigantesco. Em 1938, depois de estudar antigas descrições do Tarot ligadas à tradição da Golden Dawn, Harris sugeriu que trabalhassem num novo baralho. O projeto, que imaginavam concluir em aproximadamente seis meses, acabou se estendendo por cerca de cinco anos.
E foi Harris quem pressionou pela expansão.
Em vez de simplesmente reconstruírem um Tarot anterior, ela estimulou Crowley a colocar ali décadas de suas investigações em religião comparada, magia, filosofia e outras áreas. O resultado não seria uma atualização decorativa. Seria uma síntese.
O método de trabalho também revela uma relação muito mais complexa.
Crowley enviava descrições, ideias e esboços. Harris devolvia pinturas. Ele corrigia. Ela refazia.
Mais de uma dúzia de cartas exigiu novas versões. The Magus, no caso mais extremo conhecido, foi pintado sete vezes antes de chegar à versão que satisfez Crowley.
Esse processo me parece filosoficamente importante.
Porque entre instrução e imagem existe uma distância.
Uma ideia não atravessa a consciência de outra pessoa permanecendo intacta.
Ela é interpretada.
Selecionada.
Comprimida.
Transformada em cor.
Transformada em linha.
Transformada em espaço.
Mesmo quando um artista tenta obedecer, precisa decidir como tornar visível aquilo que antes não possuía forma.
É exatamente aí que a autoria começa a se tornar difícil de separar.
A geometria escondida nas cartas
Há uma peça de evidência particularmente sedutora, e que exige cautela justamente por ser sedutora.
Claas Hoffmann entrevistou Olive Whicher décadas depois dos acontecimentos. Segundo sua recordação, Harris conversava com Whicher e Adams sobre o trabalho com Crowley e dizia empregar no Tarot aquilo que aprendia durante seus estudos geométricos. Whicher também se recordava de ter dado aulas particulares a Harris em seu estúdio.
Seria tentador encerrar a investigação aqui e escrever:
“Está provado: a Antroposofia está escondida no Thoth Tarot.”
Mas seria intelectualmente desonesto.
O próprio relato informa que, quando essas memórias foram registradas, Whicher já apresentava dificuldades de memória; algumas circunstâncias de sua recordação haviam se modificado entre conversas realizadas em momentos diferentes.
Portanto, essa fonte é extraordinária como pista histórica.
Não como sentença.
E talvez essa diferença — entre pista e prova — seja uma das distinções mais importantes que podemos aprender a fazer quando estudamos esoterismo.
O arquivo termina aqui
A partir deste ponto, minha pergunta deixa de ser estritamente histórica.
The archive ends here. Speculation begins.
Quando observo certas pinturas de Harris para o Thoth, o que me intriga não é encontrar uma espécie de assinatura secreta de Rudolf Steiner escondida nelas.
Isso seria simplista.
O que me interessa é perguntar se a formação visual e espiritual de Harris modificou a maneira pela qual o universo de Crowley conseguiu tornar-se visível.
Porque uma filosofia pode existir abstratamente enquanto permanecer em palavras.
Quando alguém precisa dar-lhe corpo, surgem problemas que o filósofo talvez nunca tenha enfrentado.
Onde está o centro?
O que deve envolver o quê?
O que é figura e o que é campo?
O que se expande?
O que converge?
Onde começa e termina uma forma?
Como se representa o infinito dentro de um retângulo de papel?
Essas não são apenas decisões ornamentais.
Elas constituem pensamento visual.
Talvez seja justamente por isso que o Thoth produza aquela sensação peculiar de que suas figuras não repousam simplesmente sobre fundos. Elas parecem existir dentro de campos, fluxos, planos e movimentos maiores do que elas.
Mas novamente: perceber isso não demonstra automaticamente uma genealogia antroposófica.
Significa que agora sabemos onde procurar.
E a minha hipótese de “purificação”?
Minha pergunta original era mais radical.
Eu conhecia a reputação de Crowley, sua relação pública com aquilo que foi frequentemente classificado como magia negra ou um caminho espiritual de sombra, e vinha pensando também sobre a célebre experiência que ele viveu com Victor Neuburg no deserto argelino em 1909.
Em dezembro daquele ano, em Bou Saâda, os dois realizaram as operações ligadas ao décimo Aethyr e a Choronzon, dentro do processo que Crowley interpretou como uma travessia do Abismo. Alex Owen descreve o episódio como um acontecimento de enorme intensidade psicológica e ritual para ambos.
Minha primeira intuição foi perguntar:
teria Harris, décadas depois, produzido uma espécie de purificação da obra tardia de Crowley?
Hoje eu reformularia essa pergunta.
Não porque ela seja desinteressante, mas porque “purificação” sugere uma conclusão moral para a qual não possuímos evidência.
Nada do que encontrei demonstra que Harris tenha assumido a tarefa de salvar Crowley de si mesmo, corrigir sua trajetória espiritual ou reconduzi-lo deliberadamente a algum “norte”.
Aliás, reduzir Crowley de sua última década a uma figura simplesmente decadente também seria enganoso. O Book of Thoth é descrito na pesquisa sobre Harris como a última grande obra mágica de Crowley, e o projeto condensava décadas de seu pensamento.
Mas há outra maneira de conservar minha intuição inicial.
Em vez de purificação, talvez possamos falar em transmutação.
A alquimia da colaboração
Há uma forma de alquimia que não exige laboratório.
Ela ocorre quando uma ideia passa por outra consciência.
Crowley podia fornecer correspondências cabalísticas, astrológicas, mágicas e filosóficas. Podia especificar símbolos, cores e relações. Podia rejeitar uma pintura e exigir outra.
Mas não podia ver no lugar de Frieda Harris.
A mão que transformou a cosmologia em imagem pertencia a uma mulher que havia lido outros livros, frequentado outros círculos, praticado outras formas de espiritualidade, estudado outra concepção de espaço e formado outra relação com a arte.
Nesse sentido, a questão não é se Harris introduziu clandestinamente Steiner dentro de Crowley.
A pergunta mais interessante é outra:
uma cosmologia continua sendo a mesma depois de atravessar a imaginação de outra pessoa?
A pesquisa histórica recente sobre Harris tem precisamente o mérito de retirá-la da condição de personagem periférica. Sua contribuição ao esoterismo ocidental e a importância recíproca de sua parceria com Crowley são hoje tratadas de maneira muito mais substantiva.
Talvez devêssemos começar a olhar para o Thoth dessa maneira.
Não como filosofia de Crowley revestida pela estética de Harris.
Mas como algo que nenhum dos dois teria produzido sozinho.
Um terceiro objeto.
Uma região situada entre duas consciências.
E talvez seja justamente aí, entre uma coisa e outra, que alguns dos objetos mais fascinantes da história passam a existir.
— Liorah Zahav

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