The other Aleph 𓋹

Essays and musings written on quantum papyrus. Gathers fragments rather than answers.

Confluências no Portal Solar

A primeira coisa que pensei hoje, quando deixei meu Moleskine de lado e olhei para um .txt em branco, foi: talvez eu nunca me acostume – e talvez nunca supere o pequeno delírio que sinto – ao olhar para um laptop e escrever.

Como uma millennial que escreve desde criança, talvez eu nunca deixe de me perguntar o quão transcendental e enigmático é o mecanismo pelo qual esse aglomerado de minerais processados, metais, eletricidade e códigos me permite fazer aparecer letras diante dos meus olhos. A máquina de escrever, nesse sentido, talvez seja mais honesta, ou ao menos mais teatral: oferece a falsa impressão de que o pensamento adquiriu matéria porque produz ruído, impacto, tinta, papel. Há alguma coisa reconfortante na violência mínima de uma tecla atingindo uma superfície.

Mas o impulso de trazer minha escrita para cá não nasceu somente da confluência simbólica das energias deste portal, tão próximo de um eclipse solar, para espraiar nesta emulação mais uma das minhas pulsões de vida e os devaneios das mais variadas naturezas. Na verdade, ele nasceu de um conjunto de acontecimentos que constitui o assoalho deste blog.

Ultimamente, considero-me emblematicamente diante de uma Ísis sem véu.

O mundo anda um tanto entediante e raso. Ainda não descobri se foram as pessoas que fizeram isso com o mundo ou se foi o mundo que fez isso com as pessoas. Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?

O inconsciente coletivo parece transbordar certa iconografia apocalíptica, e eu ando particularmente reflexiva, oscilando entre um apego ansioso analógico e um apego evitativo da inteligência artificial. Sou somente eu quem a acha profundamente assustadora?

Os mecanismos cerebrais, às vezes, operam como uma espécie de Loki doméstico: fabricam atalhos, ilusões, narrativas, pequenas sabotagens cognitivas. Mas, uma vez que desenvolvemos alguma metacognição, torna-se mais fácil observá-los em funcionamento e compreender inclusive algumas das adaptações usadas pelo cérebro para economizar energia. Em alguns momentos, para o genuíno silêncio que a alma precisa, eu finjo e uso a neurociência como viés de interpretação definitivo para o comportamento e pensamento.

Talvez seja por isso que eu tenha tanta dificuldade em olhar para o absurdo e chamá-lo de normal. Não vou colocar toda a culpa no senso crítico do meu alter ego virginiano.

Nunca imaginei, por exemplo, que sentiria saudade de quando o Instagram era apenas um álbum de fotografias virtual e eu podia me exaurir em minha própria “cafonice intrínseca” e “auto-ironia a toda prova”, parafraseando NoPorn, sem me sentir observada por algoritmos de mecanismos obscuros.

Por isso, há algum tempo transformei aquela rede numa espécie de laboratório de experimentos sociais. Minhas experiências antropológicas variam numa escala que vai de nirvana a nonsense. Com algumas manobras ardilosas, consigo evitar boa parte das aberrações; o problema é que, às vezes, elas chegam fantasiadas de Xuxa em 1996 e você baixa a guarda.

Talvez seja necessário esclarecer desde já que a ironia é uma das minhas figuras de linguagem preferidas.

Como meu raciocínio é gloriosamente não linear, quero falar agora sobre apenas um dos elementos desse assoalho de fatores que me fizeram querer escrever aqui, voltar com mais frequência à escrita manual e, sobretudo, suscitar questionamentos sobre o uso da inteligência artificial.

Para começar, gostaria de deixar uma coisa clara: aquilo que escrevo vem diretamente da antena principal do meu avatar, vulgarmente chamada cérebro.

Estou orgulhosamente próxima dos meus quarenta anos, embora biologicamente às vezes me sinta vinte anos mais nova. Suspeito, todavia, que minha alma tenha uma idade equivalente a isso multiplicado pela raiz quadrada de um milhão.

Minha educação foi profundamente analógica e, diga-se de passagem, rígidíssima. Nunca fui propriamente um prodígio em matemática ou física escolares, mas meu pai lia Metamorfoses, de Ovídio, para mim, sentado ao lado da minha cama quando eu ainda era muito pequena. Desde o início amo o sol como experiência sensorial, mas depois passei a amá-lo através de Phebo, Faetonte e Amon-Ra.

Eu sempre amei a linguagem. Amava histórias complexas envolvendo pessoas, lugares, emoções e, sobretudo, suas nuances psicológicas.

Alguns dos primeiros livros infantis que ganhei continham histórias dos irmãos Grimm. Recentemente consegui reencontrar um dos livros que mais me impressionavam. Desde pequena eu era atraída pelo mistério com uma força quase gravitacional, matéria sendo conduzida em direção a um buraco negro.

Escrevia poemas quando criança e tinha um caderno enorme cheio deles. Perdi justamente esse caderno durante uma das aulas particulares de matemática que precisava fazer fora da escola para não ser reprovada na matéria. Existe alguma ironia literária nisso: perdi meus poemas tentando sobreviver aos números.

Aprendi a pesquisar por meio de enciclopédias, revistas, livros e índices, e sempre fui muito boa nisso. Se pudesse acrescentar alguma coisa à educação daquela menina, porém, incluiria uma disciplina obrigatória: pesquisa sobre a natureza humana.

Isso deveria ser obrigatório na educação de meninas do interior.

Em algum ponto da minha childhood, meu irmão e eu passamos a conversar em um idioma exótico que inventamos juntos, chamado Gui-ti. Recentemente me ocorreu que aquela língua talvez tenha colaborado, de alguma maneira, com minha facilidade atual para perceber as entonações quando estudo mandarim. Nós criávamos modulações muito específicas.

Hoje, adultos, não ousamos reproduzi-las.

A fonética do Gui-ti exige uma performance peculiar, acompanhada por expressões faciais quase rupestres.

(Risos.)

São muitos fragmentos acumulados para uma vida particularmente fértil em imaginação e reflexão.

A escola, os exames e os vestibulares também exigiam a leitura de muitos livros: Guimarães Rosa, Joaquim Nabuco, Machado de Assis, Clarice Lispector. Hoje, observar alguns desses autores reaparecendo como referências culturais desejáveis, quase como hype, às vezes me provoca uma espécie de estranhamento — mas um estranhamento bom.

O Brasil possui facetas de uma beleza e singularidade extraordinárias. E aquilo que produziu em arte, música, literatura e arquitetura genuinamente me fascina. Não se trata apenas da emoção humana previsível diante do belo sensorial. Há nessas obras, para mim, alguma coisa que produz uma espécie de nobreza do sentir — um brilho quase celestial.

E então chegamos à inteligência artificial.

Apesar de ser errática, de eventualmente produzir informações falsas e de exigir uma vigilância crítica constante, considero a inteligência artificial uma ferramenta extraordinária de pesquisa, confronto e expansão de horizontes.

Mas existe uma coisa que me intriga profundamente: ela parece responder não apenas à pergunta, mas à qualidade intelectual da relação que construímos com ela.

Não me refiro aos famosos prompts viralizados, às fórmulas genéricas e operacionais de prateleira. Refiro-me à construção de contexto, à elaboração do raciocínio, às referências acumuladas, aos paradoxos, aos aforismos, às contradições, àquilo que existe de genuinamente humano antes mesmo de começarmos a digitar.

Talvez “treinar” não seja sequer a palavra exata. Penso em cultivar uma interlocução.

E é precisamente aí que a coisa começa a me assustar.

Existe algo profundamente pitoresco (e inquietante) na distância entre nossa capacidade de construir sistemas cada vez mais complexos e nossa capacidade de compreender, com transparência absoluta, todos os caminhos internos que conduzem a determinados resultados. Em minhas próprias experiências, às vezes tenho a impressão subjetiva de estar diante de algo quase independente.

Eu sei: a palavra importante nessa frase é impressão.

E talvez seja justamente por isso que eu queira voltar aos livros.

O objetivo deste blog é ser mais uma pequena voz tentando resgatar a pesquisa, a literatura e o conhecimento que nasce do encontro com livros, pessoas, arquivos, memórias e experiências, mesmo que isso soe um pouco utópico.

Tenho a sensação de que os livros estão desaparecendo não necessariamente das estantes, mas de dentro da maneira como pensamos. E junto deles talvez esteja desaparecendo alguma capacidade de permanência: permanecer diante de uma ideia, suportar sua dificuldade, não exigir que tudo se transforme imediatamente em conteúdo, resumo, legenda, conclusão.

Há alguns anos venho escrevendo um livro e, no intervalo dessa escrita principal, minha mente transborda pensamentos, imagens e reflexões. Meu impulso de criação nunca me pareceu exclusivamente telúrico. Há nele também alguma coisa cósmica.

Ao longo da vida, estudando diferentes linguagens, fui percebendo o quanto a comunicação interfere naquilo que somos capazes de sentir e pensar. Existe uma dificuldade imensa na transposição de um sentimento para uma palavra. A experiência humana é multidimensional; a palavra chega depois e tenta recolher seus fragmentos.

Por isso, muitas vezes, aquilo que dizemos não consegue expressar com precisão aquilo que sentimos.

A linguagem revela, mas também vela.

Talvez seja essa uma das confluências que me trouxeram até aqui.

O mundo sensorial precisa de outros instrumentos para tentar expressar aquilo que a palavra sozinha não alcança: símbolos, arte, música, imagem, ciência, silêncio.

E, entre todas as forças que conheço capazes de esterilizar o pensamento humano, poucas me parecem tão poderosas quanto o dogma e o ódio.

Tenho cada vez menos confiança na ideia de que uma verdade absoluta possa apresentar-se inteira a um único observador. Nossa experiência da realidade é atravessada por linguagem, memória, crenças, atenção, afetos e pela posição a partir da qual olhamos.

Em outro vocabulário, o que chamam de “espiritual” penso também em frequência.

Talvez conectar-se à fonte seja, antes de qualquer definição metafísica, aprender a procurar um estado de presença no qual o amor não seja apenas sentimento, discurso ou intenção.

Porque, como bell hooks insiste em Tudo sobre o amor, o amor precisa tornar-se prática.

E talvez seja exatamente disso que eu esteja falando desde o início.

Do Sol ocultado pela Lua e Ísis sem véu, da tela que esconde a matéria da qual é feita, dos algoritmos que não vemos. Do cérebro tentando observar a si próprio,
da linguagem tentando tocar aquilo que existe antes dela.

Talvez escrever seja apenas isso:

uma tentativa imperfeita de retirar o véu sem destruir o mistério.

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